Suíça: contado no relógio
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Suíça: contado no relógio

Fabio Vendrame

25 Março 2014 | 04h00

Setorizado em cantões que conversam entre si em quatro idiomas, o país pode ser percorrido de leste a oeste em três horas – de trem, o transporte local por excelência

Panorâmica de Berna – Fotos: Felipe Mortara/Estadão

Felipe Mortara / BERNA

Estimada Pontualidade,


é com muito apreço e consideração que tomo a liberdade de lhe dar uma sugestão: a senhora deveria deixar de ser britânica e se naturalizar suíça. Sim, esqueça a terra da rainha e adote de uma vez por todas este pequeno país sem mar, é verdade, mas cheio de lagos cercados por montanhas de beleza invejável até mesmo para as mais valiosas joias da coroa.

Na Suíça, minha cara, serias soberana absoluta. Um reinado popular, legitimado pela reconhecida qualidade do maquinário dos relógios produzidos aqui – que enfeitam paredes e pulsos mundo afora, diga-se. Tudo bem que alhures não se pratique com devoção o culto às horas, ou melhor, aos segundos. Por influência de um tal cuckoo (que os locais pronunciam “cuckoorrrr”, com um erre bem garganteado), recomendo usar passarinhos como sinônimo da precisão de seu reinado.

A traquitana de inventada por Kaspar Bruner

Assim sendo, seria decretado que, ao desembarcar na Suíça, todo visitante adiantasse seu relógio em 10 minutos – uma medida preventiva para poupar dores de cabeça. E única maneira de minimizar as chances de que nós, brasileiros, percamos um trem, ou – Deus nos livre! – deixemos um suíço esperando.

Outro bom motivo para seu governo por aqui, ó nobre Pontualidade, é que atravessas a barreira dos idiomas. E os suíços lidam com quatro línguas distintas: alemão-suíço, francês, italiano e romanche, um resquício de latim falado por cerca de 80 mil pessoas. E o que há em comum neles? São todos pontuais.

Raízes. Em um lugar com hora para tudo, todos os clichês se confirmarão deliciosamente ao degustares o leite das vacas daqui. E, provavelmente, comerás rezando a maior parte dos queijos. Se me permite, indicaria um emental e um appenzeller, cuja receita os produtores mantêm em segredo há séculos. A ideia é preservar as raízes e, assim como de seus queijos, evitar a pasteurização de sua cultura. Isso sem falar nos famosos chocolates.

A senhora se encantaria com a música de instrumentos como o alphorn, espécie de berrante de madeira que pode chegar a cinco metros de comprimento. E, como diz o velho ditado, se tempo é dinheiro, aqui estarias representada também no talerchwingen, que produz som pelo atrito de uma moeda de 5 centavos com um pote de barro cilíndrico.

No que tange às esferas sociais, a Suíça é muito da bem organizada. Em alguns cantões, até hoje são votadas as principais questões na praça, com braços levantados. Há ainda plebiscitos trimestrais, em que são resolvidas – por e-mail – questões de interesse público que reuniram mais de 100 mil assinaturas.

Exemplos das últimas demandas: a revogação da proibição da venda de salsichas frias em molhos à vinagrete; e o fim dos horários noturnos nas lojas de conveniência, uma vez que os filhos dos funcionários deste turno estariam crescendo sem o devido amparo de seus pais.

Pontualidade é seguida à risca nas estações de trem – e nas relações sociais

Antes de encerrar este desagravo, digníssima Pontualidade, permita-me narrar um episódio de, veja só, impontualidade. Num momento de correria para não perder o trem que me levaria de Lucerna a Berna, embarquei faltando um minuto para o horário marcado. Sentado, e ainda esbaforido, ouvi a voz do maquinista no alto-falante: “Senhoras e senhores, pedimos perdão e compreensão de vossa parte. Por uma falha técnica este trem partirá com quatro minutos de atraso”. Não pude conter o riso – baixo, claro, para não incomodar.

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA SWITZERLAND TOURISM

SAIBA MAIS:

  • Como ir: o trecho São Paulo–Zurique–São Paulo, direto, custa desde R$ 2.447 na Swiss; com uma conexão, desde R$ 2.075 na Lufthansa; R$ 2.557 na KLM; e R$ 2.939 na TAP
  • Passe: o Swiss Pass dá direito a usar ilimitadamente trens, barcos e ônibus (em 75 cidades) por períodos predefinidos. O de quatro dias custa 221 euros e o de um mês sai por 493 euros. Em todos os trens você deverá mostrá-lo. Fique atento, pois em cidades como Lucerna não é aceito nos ônibus. Garante ainda ingresso gratuito em mais de 470 museus pelo país e 50% de desconto na maioria dos teleféricos e trens de montanha
  • Site: myswitzerland.com