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Turistas ou viajantes?

Tania Valeria Gomes

27 Agosto 2009 | 15h24

No mês de agosto, quando, em suas palavras, “hordas de turistas do Hemisfério Norte movimentam-se como gafanhotos de praga bíblica rumo às ilhas e praias do mar que um dia Julio César chamou de nostrum”, mr. Miles costuma desaparecer. Dessa vez, nosso viajante escapou, através de estradas secundárias e embarcações suspeitas, rumo às remotas Ilhas Shetland, onde está observando, prazeirosamente, os pássaros de uma reserva chamada Sumburg Head. A seguir, a pergunta da semana:


Mr. Miles: qual é, na sua opinião, a diferença entre o turista e o viajante, se é que ela existe?

Maria Helena Splendora, por email

Well, my dear: não é a primeira vez que me fazem essa pergunta e, para começar a respondê-la vou recorrer a frases de dois bons velhos amigos meus. O escritor chinês Lin Yutang, autor de A Importância de Viver era um turista e dizia: ” Ninguém pode compreender a beleza de viajar antes de voltar para casa e repousar sua cabeça em seu velho e familiar travesseiro”. Jawaharial Nheru, famoso estadista hindu, however, era um viajante e sentenciava: “Vivemos em um mundo maravilhoso, cheio de beleza, charme e aventura. E não há fim para as aventuras que se pode viver. Basta apenas manter os olhos abertos”.
São concepções muito diferentes. E, entretanto, é perfeitamente possível encontrar um turista e um viajante caminhando, side by side, por exemplo, na Place du Safranier, em Antibes e não saber como distinguir um do outro. Ambos costumam parecer estrangeiros, portam, via de regra, máquinas fotográficas e carregam guias em uma das mãos. Não se engane nesse aspecto, by the way. Um estrangeiro que se movimenta com naturalidade pelas ruelas de uma cidade tanto pode ser um viajante experimentado como um turista que volte sempre ao mesmo lugar, talvez para dar uso à sua casa de veraneio.
Há que se discernir, inicialmente, o comportamento que os norteia. Turistas, usually, viajam de férias. Viajantes de verdade, in the other hand, preferem as férias para voltar, rever os parentes, guardar os tesouros e partir novamente.
Turistas têm tempo e necessidade de descansar. Viajantes são incansáveis e repousam apenas quando o corpo lhes pede ou as circunstâncias facilitam.
A prezada leitora poderá supor, por estas simplificações, que este velho peregrino encaminha-se para colocar o turista em um patamar inferior ao do viajante. Permita-me, however, tentar corrigir essa distorção. Viajores compulsivos são, em sua essência, seres fugazes como andorinhas. É muito fácil encantar-se com eles, but it’s even easier decepcionar-se com seu desapego cruel às situações permanentes. Assim como encantam-se com os lugares e os deixam em seguida, fazem o mesmo com as pessoas.
Turistas, of course, têm padrões mais aceitáveis de convivência. Sua bagagem pode não ser tão grande —, mas pelo menos ela sempre volta.
O turista sempre sabe onde é a sua casa. O viajante, as I do, tem a pretensão arrogante de considerar cada pedaço do planeta como uma extensão de seu backyard.
Somos, as you see, tipos muito diferentes. Mas, anyway, temos algo em comum. Em algum momento, em algum lugar, teremos a oportunidade de estar caminhando lado a lado. Talvez even em Antibes, na Place du Safranier. E nesse instante, com ambos provando da mesma felicidade, ninguém saberá nos distinguir.