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Um pormenor significativo

Tania Valeria Gomes

06 Agosto 2009 | 23h37

Já tão bronzeado que, segundo ele mesmo, pode ser confundido com um habitante da Costa do Malabar, nosso grande viajante, em fase balneária, escreve-nos agora da ilha de Barbados. Mais precisamente de um pub em Speightstown, um mercado de peixes pouco procurado pela horda de turistas britânicos que invade a ilha nessa época do ano. Na companhia de Trashie, a cadela que o acompanha nas viagens desde que mr. Miles a encontrou na Sibéria, nosso correspondente relata que, apesar da qualidade superior do rum local, não foi capaz de convencer sua mascote a prová-lo. Ela continua insistindo em beber apenas single malts ou scotchs com mais de doze anos.
Bem a propósito, aliás, mr. Miles aproveita para responder à provocação de um de seus leitores:

Prezado mr. Miles: acho que o senhor fala demais em bebidas alcoólicas nos seus artigos. De whisky, sobretudo. Seria justo supor que o senhor anda fazendo algum tipo de merchandising?
Severo Cavalcanti, por email

Well, my friend: confesso que há, frequently, alguma dose de scotch em meus escritos. Trata-se, however, apenas de uma preferência pessoal. Meu saudoso amigo John Updike disse, certa vez, que os únicos bons conselhos que ouvia vinham de bocas que recendiam a whisky. Humphrey (N.da R.: Humphrey Bogart, ator norte-americano) ficou marcado por ter proferido, no leito de morte, a célebre frase “Eu nunca deveria ter trocado o scotch pelo martini”. Ou seja: não me parece que estou sozinho nesse meu pequeno prazer.
Nem todos, of course, precisam fazer o mesmo. Recordo-me, com grande prazer, das visitas que fiz a Gilberto (N.da R: Gilberto Freyre, sociólogo e antropólogo) na sua casa de Apicucos. Era um excelente anifitrião. Ninguém entrava em sua sala sem, antes, provar de sua famosa batida de pitangas, uma receita secreta que, além do primeiro jato do alambique, levava frescas pitangas vermelhas, um licor de violetas — if I remember —, feito em um convento de Garanhuns e mais o que ele chamava de “um pormenor significativo”, jamais revelado. Freyre confessou-me que, sem o auxílio de sua batida, jamais teria concluído Casa Grande & Senzala. Can you believe me?No solar de Apicucos, vi John dos Passos e Roberto Rossellini entornarem mais de um frasco cada. Mas vi, também, para minha alegria, Rubem Braga provar um cálice apenas por delicadeza e pedir, na sequência, um bom e velho scotch.
Aliás, fellow, a quantidade de whisky que se bebe em Pernambuco é remarkable! Você sabia que é o maior consumo per capita do Brasil?
Trashie, for sure, vai sentir-se em casa quando formos para lá. Exceto, of course, ao constatar que os pernambucanos bebem whisky com água de coco gelada. Jamais provei a mistura, mas parece-me tão disgusting quanto ingerir gim com tubaína ou poire com garapa. Don’t you agree?
Os escoceses, que, as you know, apesar de terem inventado a sublime bebida, jamais aprenderam a falar inglês ou a livrar-se das saias, têm um ditado segundo o qual há duas coisas que eles apreciam “absolutamente nuas — e uma delas é o whisky”. Não sou tão radical, my friend.
Nos trópicos, como aqui em Barbados ou em Pernambuco, algumas pedras de gelo são bem-vindas em meu copo. Trashie, I’m afraid, é mais convencional.