Uma breve história da importância do Caminho de Santiago
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Uma breve história da importância do Caminho de Santiago

Felipe Mortara

02 Setembro 2015 | 06h00

Bem antes de tornar-se padroeiro da Espanha, Tiago Maior foi um dos doze apóstolos de Jesus. Conta-se que, seis anos após a crucificação de Cristo, Tiago viajou para a Península Ibérica, onde divulgou as ideias cristãs, alcançando a área que hoje é a Galícia. Retornou à Palestina, onde viveu até o ano 44, quando foi decapitado por ordem do rei Herodes Agripa.

Considerado mártir, Tiago havia manifestado sua vontade de ser enterrado nas terras ocidentais que por tanto tempo percorreu. A partir de então, surgem dúvidas e lendas sobre como seu corpo teria sido transportado até lá – afinal, não era algo simples transportar um corpo por mais de 3 mil quilômetros de distância. Reza (literalmente) a lenda que ele teria sido levado por seus discípulos Teodoro e Atanásio numa nau de pedra guiada por anjos.


Enfim, já em terras europeias, o apóstolo teria sido sepultado em Iria Flavia, cidade assim batizada em honra do imperador romano Flavio Vespasiano, hoje nos arredores de Padrón, quase no litoral da Galícia. Posteriormente, foi construída uma pequena capela no local, que teria virado um ainda discreto ponto de peregrinação.

Catedral de Santiago de Compostela. Foto Divulgação

Catedral de Santiago de Compostela. Foto Divulgação

Depois que o antigo templo foi incendiado por mouros, por volta do século 9.º, Alfonso III, o Grande, ordenou que fosse erguida uma igreja maior sobre o túmulo. Mais tarde, em 1211, foi concluída a Catedral de Santiago de Compostela e, desde então, só fizeram crescer os rumores sobre os restos mortais de São Tiago estarem enterrados ali. E de que seriam perdoados os pecados dos que para lá peregrinassem.

Muitos escritos faziam menção ao santo que está enterrado nesta região conhecida pelos romanos como Finisterra, ou fim da terra, o extremo oeste de seu império. Após ir a terras tão distantes de Jerusalém  para levar os ensinamentos de Cristo, Tiago teria sido considerado o que mais longe foi para divulgar a mensagem sagrada.

O complexo de Santiago de Compostela foi reconhecido pela igreja em 1119 como um dos três grande centros cristãos de peregrinação. Cabe uma aqui uma curiosidade: aqueles que iam a Roma ganharam a alcunha de romeiros, os que marchavam a Jerusalém carregando uma folha de palma, palmeiros. Já os que prumavam a Santiago e cruzavam os campos (per + agro), acabaram denominados peregrinos. Mais tarde, informalmente e até hoje, santiagueiros.

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Por conta de obras na cripta da catedral em 1879, foram reencontradas as relíquias do apóstolo Tiago, que desde então seguem expostas ao público. Já no século 20, escavações revelaram as sepulturas dos discípulos Teodoro e Atanásio. Durante a Guerra Civil Espanhola, de 1936 a 1939, negociou-se uma trégua para a peregrinação a Santiago em 1937, ano considerado santo. As peregrinações andaram em baixa durante décadas até que, em 1982, o papa Joao Paulo II resolveu visitar Compostela, mas sem fazer a peregrinação. Nos arredores realizou uma imensa missa campal, atraindo novamente os olhares para Santiago.

No entanto, ainda em 1986 o número de peregrinos era baixo – naquele ano somente 1.801 pessoas receberam a Compostela. Entre os que percorreram e não concluíram o percurso, estava o escritor Paulo Coelho, que descreveu sua vivência em O Diário de um Mago, publicado em 1988. A partir de então, o que se verificou foi um aumento progressivo no número de compostela concedidas, passando de 690 em 1985 para 237.886, em 2014. A maior parte dos peregrinos que concluíram o trajeto naquele ano eram homens (54,2%), foram a pé (88,67%), tinham entre 30 e 60 anos (55,39%). Os espanhóis ainda são maioria entre os peregrinos, com 47,76%, seguido de italianos (16,29%), alemães (13,15%), portugueses (9,38%) e americanos (9,32%). Santiago para os hispânicos, Saint Jacques para os franceses, Saint James para os ingleses ou Iacobus, nas escrituras em latim. Enfim, não importa a língua, os peregrinos encontram seus motivos – religiosos ou não – para percorrerem o Caminho.