Uruguai: Placidez sob o sol à moda antiga
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Uruguai: Placidez sob o sol à moda antiga

Fabio Vendrame

06 Maio 2014 | 04h00

Crepúsculo nas ramblas de Montevidéu – Fotos: Alonso Zarzoza/Divulgação

No ‘El Paisito’ não tem essa de sair correndo: a frequência ali é outra, ‘slow travel’, com delicadeza e profundidade, sem atropelo. De Montevidéu a Valizas, descontos e vantagens para brasileiros

No povo simpático, hospitaleiro e de genuína simplicidade; nas tradições passadas de pai a filho; e no ritmo informal de tocar a vida e os negócios, prepare-se para descobrir o ‘uruguayan style’

Roberta Della Noce / ESPECIAL PARA O ESTADO/ MONTEVIDÉU


Céu vermelho, azulado, ocre, esverdeado. Em 21 dias de viagem pelo Uruguai, vi tantas tonalidades que não foi possível decidir qual cidade, das cinco que visitei, me proporcionou o mais belo pôr do sol. Talvez por isso o emblema nacional do país, estampado na bandeira, seja o Sol de Maio, uma representação do deus inca Apu Inti.

Sim, é possível conhecer o Uruguai em um fim de semana ou feriado – mas saiba que você vai voltar com um gostinho de quero mais. Para desvendar os segredos de El Paisito, contudo, viajar em modo slow travel é a pedida.

Na paisagem, planícies, colinas baixas, dois rios (o da Prata e o Negro), algumas lagunas ao longo do Atlântico e uma costa litorânea fértil. No ano passado, 400 mil brasileiros aportaram por lá e o governo lançou um pacote de benefícios, válido até 31 de julho, com incentivos para “nosotros”: isenção de impostos (que variam de 10,5% a 22%) sobre serviços de hospedagem, aluguel de veículos, locação de imóveis, vestuário e gastronomia – alguns, abatidos no pagamento e, outros, reembolsados no aeroporto.

Outra barbada: desconto de 24% no combustível (no cartão de crédito ou débito) em postos a até 20 quilômetros da fronteira. Além disso, os pedágios poderão ser pagos em reais.

O automóvel, afinal, acaba sendo a primeira escolha para explorar o Uruguai por terra (as estradas são bem conservadas), mas preferi usar o bom e velho transporte coletivo. Não me decepcionei. Fui da capital, Montevidéu, à histórica Colônia do Sacramento, da badalada Punta del Este às praias agrestes de Barra de Valizas e Cabo Polônio.

O uruguaio é simpático, hospitaleiro e carrega consigo uma simplicidade genuína, característica do homem do campo, o gaúcho. A melhor expressão que encontrei para definir seu modo de ser? Uruguayan style.

Cidade Velha, centro de Montevidéu

Apesar de 95% da população descender de europeus, eles possuem um estilo único. Não se assemelham a argentinos, a brasileiros ou a sul-americanos de modo geral. Parecem primos dos gaúchos do Rio Grande do Sul: a carne, o mate, as roupas e até as características físicas são similares.

Tradições e costumes passados de pai para filho têm grande importância por lá. Talvez por isso, moda, design e arte contemporânea não sejam pontos fortes do país. Apesar de existir uma jovem produção cultural aqui e ali, as proporções são tímidas quando comparadas à Argentina ou a outros países da América Latina.

Opções e diversidade não são abundantes no Paisito, mas podemos dizer que o que está disponível é de boa qualidade. Tudo no Uruguai é despretensioso, seja o restaurante pequeno da esquina que mais parece a casa de sua avó, seja a loja de design que improvisa no embrulho de presente.

Lição de casa. Se você pretende ir a algum balcão de informações turísticas, receber um mapa e dicas de passeios, desista. O melhor é pesquisar antes de sair do Brasil (levar o Viagem na mala, quem sabe?) e checar a agenda dos locais que pretende visitar.

Fora do horário de verão, por exemplo, os museus abrem no início da tarde e encerram a visitação por volta de 17h15. Alguns estabelecimentos não funcionam todos os dias, incluindo bares e restaurantes. Em certos feriados – como o carnaval – Montevidéu pode ficar vazia e melancólica, já que os moradores viajam para a costa e o comércio fecha.

Ah, e também esteja preparado para mudar de planos a qualquer momento. O dono daquela loja pode achar que o dia não está rendendo e fechar as portas mais cedo – ou nem abrir. Em compensação, simpatia e bom papo há em todo lugar – os uruguaios adoram longas conversações. Deu para entender agora do que se trata o uruguayan style?

Na placa, o aviso: ‘Não vendemos maconha. Por enquanto’

Polêmica busca do bem-estar social

Ao iniciar a venda estatal de maconha, prevista para esta semana, o Uruguai colocará em prática uma medida polêmica que reafirma sua tradição de pioneirismo em direitos civis, em busca do bem-estar social. Em 1907, o país foi o primeiro na América Latina a legalizar o divórcio (o Brasil fez isso em 1977). As mulheres uruguaias votam desde 1932, em segundo nas Américas – primeiro foram os Estados Unidos.

Em 2007, os uruguaios foram os primeiros sul-americanos a legalizar a união civil entre pessoas do mesmo sexo. O casamento gay foi aprovado no ano passado. Antes, em 2012, veio a descriminalização do aborto.

Apenas residentes no Uruguai cadastrados como consumidores recreativos terão acesso à compra da maconha, com posse limitada a até 40 gramas por pessoa.

  • SAIBA MAIS:
  • Aéreo: SP – Montevidéu – SP: R$ 631 na Gol; R$ 766 na TAM; R$ 837 na BQB e R$ 1.006 na Aerolineas
  • Ônibus: de Barra de Valizas a Cabo Polônio, use a empresa Rutas del Sol; a COT entre Punta del Este a Colônia e a Copsa de Montevidéu a Punta
  • Ferry: travessia entre Buenos Aires e Colônia do Sacramento: desde R$ 95 na Buquebus
  • Do aeroporto: de táxi ao centro de Montevidéu paga-se cerca de R$ 130 (consulte em taxisaeropuerto.com). Há três empresas de ônibus que levam ao centro; consulte em aeropuertodecarrasco.com.uy
  • Melhor época: faz calor em dezembro e janeiro, e a partir de fevereiro o clima fica mais ameno. No inverno, a temperatura gira em torno de 15 graus – e as cidades litorâneas ficam vazias
  • Câmbio: R$ 1 equivale a 10 pesos

‘Asados a la brasa’, especialidade da casa – Fotos: Divulgação

FAÇA COMO OS URUGUAIOS: 

Sabor ‘charrua’ – Prove as empanadas, de carne ou de verdura. As do La Taberna del Diablo são tradicionais. E não deixe de experimentar o chivito, o calórico sanduíche do Bulebar (Boulevard España, 2231). Comi o rústico, com carne, pimentão, ovo, azeitonas, maionese, ervas, queijo, presunto, cebola e rúcula, a 240 pesos (R$ 26). Na rua, vá de hamburguesas, panchos (cachorro-quente) e o clássico choripán (pão com linguiça)

Grito de gol – Assisti a um jogo no Estádio Centenario, palco da primeira Copa do Mundo, em 1930 – o Peñarol perdeu do Santos Laguna, do México. Ingressos não são vendidos na hora e não há cambista. O estádio tem um museu aberto à visitação de 2ª a 6ª, das 10h às 17h

Na moda – Os buñuelos de algas (bolinhos) são a sensação das praias de Rocha. Em Valizas e Cabo Polônio as porções são sempre acompanhadas de cervejas ou licuados (sucos naturais batidos no liquidificador)

Cachecol com gorro para crianças

Mãos à obra – As lojas Manos del Uruguay estão em todo o país. Há blusas, cachecóis, gorros e luvas únicos. Os produtos são tingidos à mão e na etiqueta consta o nome da artesã. Funciona por meio de cooperativas

A banda de rock Hablan por la Espalda

Trilha sonora – O rock tem lugar cativo e muitas bandas misturam ao estilo o candombe, ritmo de origem africana. Sugestões: a veterana e underground Hablan por la Espalda; o power trio de rock and blues psicodélico Revolver e as pops Sante les Amis e No Te Va Gustar

Compartilhar o mate é costume cotidiano

Brinde à francesa e o onipresente mate – Prove o clericot, bebida de origem francesa muito comum no Uruguai. Mais consumida no verão, lembra a sangria, mas as frutas são misturadas com vinho branco e espumante. Em qualquer época do ano, compartilhar um mate em pequenas cuias é ritual cotidiano