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Viagem a um não-país

Tania Valeria Gomes

14 Outubro 2009 | 11h57

Ao completar meia década como colaborador deste caderno, nosso incansável viajante britânico envia saudações aos leitores que se habituaram a acompanhar suas andanças pelo mundo e informa que “o ato de responder, semanalmente, a uma das cartas que recebo, incorporou-se a minha rotina com o mesmo prazer do scotch de cada dia”. Mr. Miles confirma, também, que, embora a contragosto, familiarizou-se com o laptop, que, no entanto, continua considerando um objeto muito menos interessante e glamuroso do que sua inseparável caneta-tinteiro, “com a qual, certainly, os textos adquirem outra vida”.
A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: ouvi falar que existem países não-oficiais. O senhor já esteve em algum deles?
José Marcelo Stevaux, por email

Of course, my friend. Sou fascinado por essas nações que ninguém reconhece. Elas jamais aparecem nos jornais, não disputam competições internacionais, não fazem parte dos curriculos escolares e, oh my God, sequer merecem uma cor que as diferencie nos mapas geográficos. E, no entanto, existem. Têm vida e governos próprios. Possuem bandeira, tradições, música e até seus tipos peculiares de gastronomia.
Mas o resto do mundo insiste em ignorá-las para evitar atritos com as nações das quais se separaram, que, por sua vez, também não reclamam da situação, ainda que, officially, tenham de se manifestar mortalmente ofendidas.
Não é o caso, I’m afraid, da República de Nagorno-Karabakh, um estado independente de facto que fica dentro do Azerbaijão, mas cuja população é cristã e armênia. Eu nunca estive lá porque, embora eles sejam independentes desde 1991, azeris e armênios vivem mostrando os dentes uns aos outros — o que, of course, dificulta o desenvolvimento de uma identidade nacional. Também ainda não estive na Transnístria (ou Pridnestróvia, como preferem os locais), um país que pertence oficialmente à Moldávia mas que, com ajuda soviética, declarou sua independência no início dos anos 90. Pretendo fazê-lo algum dia, durante o verão. Ainda não pesquisei como chegar a Tiraspol, sua capital, mas um amigo pridnestrovês garantiu-me que posso ir tranquilo, porque o conflito, naquelas bandas, está congelado como o próprio país durante grande parte do ano.
O não-país que visitei há pouco tempo foi a surpreendente Somalilândia, uma porção de terra convenienentemente apartada da Somália também em 1991. Localizada no chamado Chifre da África, uma região infestada de piratas e permanentemente conflagrada por guerras tribais, a Somalilândia, democraticamente liderada pelo presidente Dahir Kahin, é um oásis de paz onde vivem 3,5 milhões de não-habitantes. Nenhum país do mundo reconhece-lhe a existência — not even your president Lula, que é capaz de gestos generosos na esfera internacional, tais como aplaudir nações que lhe confiscam refinarias e hidrelétricas ou oferecer a única casa de que dispõe em Honduras como barricada para uma longínqua disputa entre caudilhos.
However, a vida segue normal na Somalilândia, que além de belas praias e a friendly people, possui pequenas jóias como a cidade histórica de Sheekh, onde belos prédios coloniais ingleses dividem o espaço com amostras da exibida arquitetura otomana. Foi, I must say, uma bela viagem que, nevertheless, nem sei se de fato existiu. Believe me, fellow: ao visitar um país que não existe, não consta e não é mencionado eu mesmo fiquei na dúvida se de fato fui ou se sonhei. Pergunto-lhe, portanto: quem visita um não-país é um não-viajante ou muito pelo contrário?