Vista para o lago e clima intimista
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Vista para o lago e clima intimista

Adriana Moreira

26 Novembro 2013 | 12h58

Pesca de trutas no Lago Fagnano. Foto Marina Pauliquevis/Estadão

MARINA PAULIQUEVIS, PAMPA GUANACO

Depois de um voo espetacular sobre a Cordilheira Darwin, descemos em Pampa Guanaco e partimos por terra para o Lodge Deseado, à beira do lago de mesmo nome. Agora sim, vamos nos isolar, definitivamente, do resto do mundo.

A estrada chegou ali há cinco anos. Foram dois anos para que Ricardo Salles e um sócio construíssem o lodge, com apenas quatro quartos, à beira do lago – esta é a terceira temporada de funcionamento. Barulho? Só dos pássaros e do vento nas árvores.Da cozinha saem delícias como alfajores caseiros para o café da manhã (que podem muito bem ser um lanchinho furtado), cordeiro com batatas e torta de merengue com ruibarbo. Todos fazem as refeições juntos em uma sala envidraçada com vista para o lago. Vinho chileno e pisco sour não faltam e o próprio Salles, ou Senhor Deseado, como é chamado pelos visitantes, prepara e serve os drinques. Depois de uma noite de conversa, comida e bebida, todos se sentem em casa.O lodge é ponto de partida para caminhadas pelas montanhas com duração de 2h30 a dois dias. Um passeio de caiaque é outra opção. Mas muitos hóspedes vão em busca das trutas de até 2,5 quilos, pescadas no lago ali em frente.

A temporada vai de outubro a março – no resto do ano, o frio impede as atividades. Mas não se surpreenda se, mesmo no verão, anoitecer com lua e estrelas e amanhecer com tudo branco de neve. “Aqui não existe previsão do tempo. Neva e faz sol no mesmo dia”, diz Salles. Os quartos são preparados para essas mudanças, com calefação e ducha quentíssima. Um gerador a gás é abastecido por caminhão a cada dois ou três meses.

De manhã, um passeio até Caleta Maria guarda ótimas surpresas: os primeiros pinguins-reis da viagem e uma revoada de albatrozes. O almoço foi ali mesmo, para aproveitar ao máximo o lugar. De volta ao lodge, uma parada para pesca no Lago Fagnano, que tem apenas uma pontinha chilena – a maior parte dele está na Argentina.

A despedida do Lago Deseado teve a tal neve surpresa. Nas novas fotos, parecia até um outro lugar.

Silêncio: é hora da pescaria

A chegada ao Lodge Lakutaia, durante a noite, escondia a paisagem de montanhas nevadas que fez os olhos se espantarem com a beleza do cenário ao amanhecer. É para elas que praticantes de trekking partem para caminhadas de até 6 dias. O hotel também organiza cavalgadas, passeios de caiaque e viagens para pesca com mosca, ou fly fishing. O lugar está no meio termo entre o isolamento e o contato com o mundo exterior: internet, só nas áreas comuns.

O Lakutaia, cercado de montanhas nevadas

Perto dali, o Parque Etnobotânico Omora (colibri na língua Yamana), que integra a Reserva da Biosfera do Cabo de Hornos, pede um equipamento inusitado para a visita: uma lupa. É que o lugar guarda mais de mil espécies de musgos, liquens e hepáticas, minúsculas plantas que formam bosques em miniatura em cada tronco de árvore – para ver tudo, só mesmo com uma lente de aumento. A entrada custa US$ 50 por pessoa e deve ser feita com guia.

A 3 quilômetros dali fica a pequena Porto Williams. No caminho, uma parada no Yatch Club Micalvi (www.micalvi.net/theclub.html). Instalado em uma embarcação atracada, um bar recebe viajantes que estão voltando de Ushuaia, Cabo de Hornos ou mesmo da Antártida. Muitos penduram uma bandeira, uma flâmula ou uma cédula de dinheiro – as do Brasil não podiam deixar de estar lá.

Finalmente, chegamos a Porto Williams. Nascida como base naval, em 1953, a cidadezinha é usada como ponto de partida para várias trilhas de trekking. Apesar de pequena, tem até aeroporto – e voos diretos desde Punta Arenas.

Os chilenos querem que os visitantes, além de se encantar com a beleza natural da província de Magalhães, conheçam a história local. Prova disso é o capricho com que foi montado ali o Museu Antropológico Martin Gusinte, onde a história dos índios que povoaram a região é contada em fotos, textos e objetos de caça. Logo na entrada, a réplica do barco e das armas dos Yamana deixa no ar uma dúvida: como eles sobreviveram em lugar tão inóspito com instrumentos aparentemente tão frágeis?

É de se imaginar também quão difícil foi erguer a cidade, localizada em uma região onde o clima é cheio de humores. E, ainda assim, dá vontade de ficar mais por lá.

Saem as montanhas, entram os pampas

No lugar de montanhas nevadas, a típica planície dos pampas. Em vez de lagos, um rio sinuoso. Este é o cenário do Lodge Cameron, instalado em uma fazenda de ovelhas e gado de 100 mil hectares. Se você curte pesca, este é seu lugar: as trutas do Rio Grande são cobiçadíssimas pelos turistas-pescadores.
Não é o único programa por ali, é claro. Visitas a colônias de pinguins e passeios de caiaque também fazem parte das atividades. Alejandro Cardenas Ampuero, responsável pelo lodge, é quem guia os turistas e os acompanha em um almoço especial, com carneiro assado no fogo de chão – um clássico.

Para atrair os brasileiros, que ainda não chegaram por lá, preço especial. O pacote de 7 noites com tudo incluído, desde o aeroporto de Punta Arenas, a 410 quilômetros dali, custa US$ 4.500 para americanos e europeus. Para brasileiros, sai por US$ 2.100.

No último dia, o caminho do Lodge Cameron até Porvenir, cidade de 4 mil habitantes, é marcado pelos grupos de guanacos, sempre em disparada.

Antes da despedida, mais pinguins, no Parque Pinguino Rey, às margens da Baía Inútil. Os animais já estavam lá no começo do mês, separados dos visitantes por um braço de rio, mas perto o bastante para boas fotos.