A paisagem é cúmplice do amor?

A paisagem é cúmplice do amor?

Heitor e Sílvia Reali

08 Junho 2017 | 16h17

LIsboa

crédito viramundo e mundovirado

Cá na Terra, dois olhares se cruzam e um não sei quê acontece que sela para sempre seus destinos. Esse momento único arrebata artistas, escritores, músicos, pessoas comuns e até mesmo cangaceiros.


Alguns locais ficaram marcados pelo encontro desses casais que não conheceram fronteiras e converteram-se na imagem da paixão imemorial.

 

Theatro Municipal de São Paulo Crédito; Fundação Theatro Municipal de São Paulo

 

São Paulo de Pagu e Oswald – Amor anárquico

Conduzida pela coragem de abrir caminho para um Brasil moderno, Patrícia Galvão, Pagu, (1910-62) foi poeta, jornalista, desenhista, escritora e militante política. Lutava contra o preconceito, as injustiças sociais e pela construção de uma cultura brasileira. Oswald de Andrade (1890-1954) então casado com a artista Tarsila do Amaral, já era escritor famoso quando conhece Pagu no Theatro Municipal em São Paulo. Na época poetas, escritores e artistas costumavam se reunir em salões da metrópole paulista, na Praça da República, e em almoços no Mappin Stores, onde discutiam movimentos embrionários da Semana de Arte Moderna de 1922.
Anos mais tarde, ele aos 38 anos, ela com vinte a menos e já grávida se casam.  É o próprio Oswald quem conta em seu livro ‘Romance da Época Anarquista’: “em 1930, a jovem amorosa, Patrícia Galvão e o crápula forte, Oswald de Andrade, diante do jazigo da família no Cemitério da Consolação, assumiram o heroico compromisso. Cumpriu-se o milagre. Agora sim o mundo pode desabar”. E começaria mesmo a desmoronar pouco depois pela repressão aos militantes comunistas: Pagu era um deles.

 

Crédito Wikimidia Commons

Roma de Fellini e Giulietta – La Dolce Vita

A estudante de psicologia e jovem atriz italiana Giulietta Masina (1921- 1994) foi escolhida para interpretar a protagonista de um seriado de rádio, cujo autor era Federico Fellini (1920-1993). Impulsivo ele a convidou para jantar em um famoso restaurante de Roma. Anos mais tarde Giulietta confessou que colocara na bolsa um dinheiro adicional para o caso dele não poder pagar a conta. Em outubro do mesmo ano os dois se casam: ela, aos 22, ele com 23 anos.

Giulietta protagonizou muitos filmes do marido tendo Roma como cenário. A relação deles atravessou o tempo, e quando comemoraram 50 anos de casados, Fellini redesenhou o convite original do casamento, trocando o ano de 1943 por 1993. Mas, no dia seguinte à festa, Federico morreu e Giulietta se iria cinco meses depois.

 

crédito: viramundo e mundovirdo


Bahia de Virgolino e Maria Bonita – Amor doce

Natureza selvagem, rochedos, serpentes venenosas e mandacarus. A história do cangaço faz pensar que nenhum outro par se casa tanto com a paisagem quanto Virgolino Ferreira da Silva (1897-1938), vulgo Lampião, e Maria Bonita (1911-38). Conheceram-se no município de Paulo Afonso, Bahia, na humilde casa de taipa dos pais de Maria no sítio Malhada da Caiçara. Era uma sexta-feira. Lampião chegou e logo dispara: “Você sabe bordar?”
– Sei.
“Vou deixar uns lenços pra você bordar e volto daqui a duas semanas pra buscar”, ele prometeu.

Pouco tempo depois fogem juntos. Em suas andanças percorreram o sertão de sete estados do nordeste e a temida Rasa da Catarina, um dos locais mais inóspitos do Brasil. Dançavam de ‘afofar o chão’ e, dengoso, ele criava modinhas dedicadas a Maria. Quando lhe perguntavam o que deveriam dizer aos policiais em seu encalço, sorria: “Diga que passei por aqui amando e querendo bem”.

Nas fotos que Benjamin Abrahão fez do bando, vê-se Maria vestida de chita, meias grossas para proteger as pernas dos espinhos, anéis, colares e brincos de ouro, lenços e embornais caprichosamente bordados. E o repentista sintetiza: ‘Essa elegante baiana/ era a ‘misse’ do sertão/ E por Maria Bonita/ Batizou-a Lampião/ A natureza os uniu/ Os dois em um só coração´.

 

Laguna

crédito: viramundo e mundovirdo

Laguna de Anita e Giuseppe  – Amor na guerra

Ana Maria de Jesus Ribeiro (1821-49), nascida em Laguna, já na adolescência demonstrava amor pela liberdade desafiando os costumes da época: andava a cavalo e tomava banhos de mar. O combatente Giuseppe Garibaldi (1807-82), estava exilado em Santa Catarina depois da Revolução Farroupilha. Vivia em uma escuna ancorada na baia de Laguna quando viu pela luneta uma jovem. Seu caminhar altivo e os cabelos negros soltos ao vento o cativaram de imediato: ”Mi ha colpito come um fulmine”, me atingiu como um raio teria dito. Ana, que ele chama pelo diminutivo em italiano, Anita, tem 18 anos; ele 32. O namoro começa enquanto ela faz exercícios de tiro instruídos por Garibaldi.
Os dois atuam em batalhas no Uruguai. Anita municionava canhões, foi enfermeira, aprendeu a falar italiano, espanhol e francês. Instruía-se e fortalecia seus ideais de igualdade e justiça social.

Em Laguna, cenário desse amor sem fronteiras, três séculos de história aguardam os viajantes: os antigos casarões, a igreja de Santo Antônio dos Anjos e a casa ao lado, construída em 1711, onde Anita vestiu-se de noiva aos 14 anos para seu primeiro casamento, imposto por sua mãe. Do alto do morro da Glória uma visão panorâmica justifica o nome da cidade, com suas praias, ilhotas verdes, lagoas e dunas. Ainda hoje mantém os ares de uma Veneza rural.

 

Paris

crédito: viramudo mudovirado

Paris de Niki e Jean – O amor é uma arte

Uma fonte feita a quatro mãos em um dos locais mais agradáveis de Paris uniu Jean Tinguely (1925-91) e Niki de Saint Phalle (1930-2002). Artista suíço, Jean está entre os fundadores do movimento nouveau réalisme, e Niki era top-model, elegante, filha de banqueiros franceses, e educada em Nova York. Conheceram-se em 1956, no coração de Paris, e cativada pela irreverência do trabalho de Jean, ela começou a pintar. O amor chegou logo, mas eles se casaram só quinze anos depois.

A Fonte Stravinsky une as obras construídas com engrenagens recuperadas por Tinguely, com a policromia das figuras lúdicas como sereia, boca, coração e chapéu, de Niki. Quem sabe não será esta a verdadeira ‘fonte da juventude’, cenário de um amor correspondido, luminoso e alegre?

Petrópolis

crédito: thinkstock

Petrópolis de Elizabeth e Lota – Amor na contramão

Uma mutante Nova York em plena efervescência de novas mentalidades foi cenário do primeiro encontro entre duas mulheres nada convencionais: Elizabeth Bishop (1911-79) poetisa norte-americana, e a urbanista autodidata brasileira, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares (1910-67). Era então o ano de 1942 e, Lota como era mais conhecida, viajou aos EUA para acompanhar Mary Morse em visita a sua amiga Elizabeth.

Porém, só foi anos mais tarde que o romance se inicia quando Bishop chega em Petrópolis, a tropical região serrana do Rio de Janeiro. Mas, esse relacionamento não é notório por ser um amor homossexual, e sim pelo que o amor mudou na vida das duas. Nos quase 17 anos que viveram juntas, em cada uma parece ter aflorado o melhor: Lota teve a ideia de transformar um aterro cheio de entulhos provenientes da derrubada do Morro de Santo Antônio no Parque do Flamengo, com ofertas culturais, esportistas e de lazer.

Os críticos consideram que o melhor da produção de Bishop se deu nos anos em que viveu com Lota na casa Samambaia, em Petrópolis. E, foi ali, em 1956, que ela recebeu a notícia que havia ganho o prêmio Pulitzer, e se consolidou como uma das mais importantes poetisas do século 20.

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