‘Meu marido entendeu a importância da conversa entre um casal’

‘Meu marido entendeu a importância da conversa entre um casal’

Você está acostumado a ler aqui sobre viagens. Hoje, pedimos licença para contar a história da Cássia*

Heitor e Sílvia Reali

08 Março 2018 | 03h00

Foto: Arte/Estadão

Geralmente você lê sobre viagens aqui, mas hoje vamos emprestar a coluna para a Cássia*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

A foto do perfil do meu celular é aquela flor delicada, quase um pompom branco que as crianças adoram assoprar. No primeiro sopro parece que as sementes relutam em sair voando, mas logo se deixam levar livres para a nova vida. O nome da flor é Esperança. O meu é Cássia.


Eu e o Paulo sempre nos curtimos muito. Ele tem um trabalho bem bacana, assopra vidro e cria peças lindas. A gente se casou cedo, e vieram dois meninos cheios de vida. Sempre gostei de passear, ver as amigas, almoçar com minha mãe. Foi quando ele passou a implicar com minhas saídas, e ficou pior quando comecei a frequentar uma academia de ginástica. ‘Nadaver’ eu retrucava, não é agora com 23 anos que vou perder o juízo. Certa noite, valentão e enciumado, me deu uma testada! Cega de dor e de raiva chamei a polícia.

Doeu muito mais vê-lo preso.

Os cinco dias que ele ficou na cadeia foram pesadelo para nós. Será que fiz a coisa certa? Ele vai ficar com mais raiva. Tive muito medo, mas ninguém merece apanhar. Na cela ele ouviu relatos de espancamentos, e os homens incentivavam a vingança que deveria ser selada com surra inesquecível. Nenhum deles merecia estar ali, eram vítimas das mulheres, afirmavam. Papéis trocados.

Ele deixou a cadeia. Nos estranhamos. A lei dizia que era preciso manter distância. Só que, com ele solto, de certo modo eu virei prisioneira: do medo. Foi quando chegou a carta para ele participar do projeto “Tempo de Despertar – Ressocialização do Agressor” no Foro Regional da Penha. Ali meu marido entendeu a importância da conversa entre um casal. Juntos somamos tudo, e assim acabei por quebrar a medida de manter distância. Com o perdão nasceu a Clara.

Quando postei a Esperança no celular, nem pensei nisso, mas acho que ela me representa muito bem. Não é que essa flor tem o significado de união e tolerância? E, como a flor, espero que meninos e meninas não se deixem levar pelo medo. Livres, poderão ir em busca  um futuro melhor.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apóie e denuncie. Outras colunistas do Estadão cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vitíma.