Na festa ‘Caballos del Vino’ eu vi um milagre

Na festa ‘Caballos del Vino’ eu vi um milagre

Heitor e Sílvia Reali

29 Dezembro 2017 | 20h38

 

Caravaca de la Cruz

O perigo ronda a Festa Caballos del Vino
crédito: Viramundo e Mundovirado

Começo com a cena que mais me marcou em Caravaca de la Cruz, Espanha, cidade medieval mimetizada sobre imponente rochedo.

Foi durante a Festa da Santíssima e Vera Cruz de Caravaca, padroeira desta aldeia. O ápice da comemoração que se realiza a cada 2 de maio é a famosa corrida dos “Caballos del Vino”. Consiste num torneio que premia o cavalo e quatro cavaleiros, ali chamados de caballistas, que subirem mais rápido uma íngreme ladeira de 90 metros.


Os cavaleiros seguram uma corda presa ao cavalo e correm ao seu lado, e quem soltar é desclassificado. As provas são individuais, e os vencedores rondam a marca dos nove segundos, ou seja, uma incrível marca de 10 metros por segundo.

Caravaca de la Cruz

Multidão aguarda a carrera dos caballistas
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Não existe raia para os cavalos. A própria ladeira, em direção à porta da Basílica, serve de pista. Nela e em suas laterais apinha-se uma multidão, pois todo mundo quer ficar na fila do gargarejo. Quando a corrida começa não é possível imaginar o quanto é perigosa.

Os espanhóis são bons nisso, veja o caso da “Fiesta de Pamplona” em que os touros saem chifrando os mais descuidados e valentes pelas ruas da cidade. Em Caravaca, quando o autofalante anuncia “atención caballos em carrera”, abre-se uma brecha na multidão para dar passagem ao cavalo e seus cavaleiros em disparada.

Caravaca de la Cruz

Quase a última foto de um fotógrafo.
crédito: Viramundo e Mundovirado

Tudo aconteceu muito rápido. Numa dessas “carreras”, na linha de chegada, quando o cavalo atinge mais velocidade e força, ele bateu de frente com um fotógrafo que não tirou o corpo fora a tempo. Fotógrafo e um dos “caballistas” literalmente voaram, alto pra caramba, e desabaram sobre algumas pessoas.

O impacto foi tão grande que o cavalo desviou seu trajeto e investiu na direção dos espectadores. Um deus-nos-acuda! Depois de rolar feito acróbata de circo entre a multidão, o fotógrafo se levantou sem nenhum arranhão, tomou fôlego, e disse: “estou bem pacas”. Incrédulos, todos diziam: ‘fue un milagro’

Será que Caravaca de la Cruz, considerada uma das cinco cidades santas do mundo, ao lado de Roma, Jerusalém, Santiago de Compostela e Santo Toríbio de Liébana, teve arte nisto? Exatamente no dia da festa de sua padroeira?

Caravaca de la Cruz

A capa e os adereços dos caballos del vino chegam a custar mais de 25 mil euros
crédito: Viramundo e Mundovirado

Há quase 800 anos não houve dúvida quanto ao milagre, e a Igreja proclamou Caravaca cidade santa. Naquele tempo ele foi direto e maravilhoso e é assim contado: Em 1232, um prisioneiro dos conquistadores mouros, o padre Ginés Pérez Chirinos, foi obrigado a celebrar uma missa para os muçulmanos que, curiosos, queriam conhecer a eucaristia. Mediante sua recusa, pois faltava um crucifixo no altar, Ginés foi condenado à morte.

Naquele momento dois anjos entraram por uma janela do Alcazar, hoje Basílica-Santuário. Traziam uma cruz. Diante dessa aparição milagrosa o rei mouro Ceyt-Abuceyt e seus súditos se converteram ao cristianismo.

Em tempo: o fotógrafo que, descuidado, ficou diante do cavalo e foi atropelado, era eu.

Caravaca de la Cruz

Caravaca de la Cruz
crédito: Viramundo e Mundovirado

Mais informações: www.caravaca.org

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