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Nos caminhos de El Che, antes da motocicleta
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Heitor e Sílvia Reali

11 Janeiro 2017 | 18h26

Museu Casa Ernesto Guevara, em Alta Gracia, fotos Viramundo e Mundovirado

Museu Casa Ernesto Guevara, em Alta Gracia, fotos Viramundo e Mundovirado

Que atire a primeira pedra quem nunca deu uma resposta casca-grossa por falta de conhecimento, por preconceito ou ideologia. A que mais me marcou foi a respeito de Ernesto Guevara e vai completar 50 anos em 7 de outubro de 2017. Assim, fui à Argentina para me remir com El Che.

Ernesto em 1950, estudante de medicina. Foto: Centro de Documentación Ernesto Che Guevara

Naquele dia soube do seu assassinato. Dei de ombros e falei: ele que se f… Essa frase causou indignação para Catunda, meu companheiro de faculdade que repicou: cara por que você disse isso? Maldita pergunta, até hoje não sei. O fato é que ela me marcou muito.

Não precisei tanto tempo depois para admirar e respeitar os ideais de liberdade e da verdade daquele revolucionário que desprezava o estrelato. Minha primeira grande lição aos 18 anos foi nunca dar uma resposta ao léu. E, um ano após, já me misturava ativamente na geração levada da breca de “maio de 68”.
Caraguatay
História? Aventura? Ação? Fantasia? Utopia? Meu roteiro para conhecer os caminhos de Ernesto Guevara, antes da motocicleta, tem situações e ingredientes desses diversos gêneros, mas foi muito mais do que uma viagem. Seu ponto forte foi aquele que sustentou a construção do personagem “El Che”.

“Caraguatay, aqui começou a história”, e minha viagem também. Não foi fácil chegar nesta região a 180 km de Posadas, em plena selva missioneira argentina. Entre montanhas recobertas de mata fechada de um lado e das águas barrentas do rio Paraná do outro, Ernestito, como era chamado pelos parentes e amigos, a partir de 1928 passou os primeiros anos de sua infância. Ali seu pai mantinha um visionário projeto de plantação de erva mate.

Caraguatay
A estrada que leva até a fazenda, hoje Museu Casa Misionero del Che Guevara, saindo da rodovia 12 – estrada que corta a província de Misiones – é ruim e estava enlameada pelas chuvas torrenciais que ali são comuns. O céu cinzento e relampejante criava um clima de suspense e pairava sobre mim como se dissesse: agora é tarde meu! Ele não vai te desculpar.

Em frente as ruínas da cabana de madeira da primeira morada de Ernesto Guevara, o silêncio só é cortado pelas ruidosas águas do poderoso Paraná que corre pertinho, e da algaravia de pássaros invisíveis que dava a impressão de que as árvores eram cantantes. A floresta ao lado é a mesma de sua infância e permanece ainda selvagem.

Casa Misionero del Che Guevara, em Caraguatay, foto Viramundo e Mundovirado

Casa Misionero del Che Guevara, em Caraguatay, foto Viramundo e Mundovirado

 

Antes de chegar a essas ruínas o ideal é visitar as instalações do Centro de Documentación Ernesto Che Guevara, na entrada do Parque. Isso porque o acervo é rico em fotografias desse tempo e é possível identificar vários locais onde o futuro El Che brincava.

Ernestito, 1928, foto: Centro de Documentación Ernesto Che Guevara

Ernestito, 1928, foto: Centro de Documentación Ernesto Che Guevara

Não seria exagero dizer que foi aqui em Caraguatay que a personalidade de Ernesto Guevara começou a se formar. Sua mãe, Celia de la Serna, era uma mulher de forte presença, rica, culta, inteligente, que contrastava com seu pai, um arquiteto sonhador. Foi ela quem primeiro revelou a Ernestito as injustiças e exploração dos trabalhadores daquela região argentina, longe da cosmopolita que se espelhava na Europa.

Caraguatay guarda também um segredo revelado pela diretora do museu. Para compreender a força ideológica de El Che, devemos também passar pelas mãos da indígena Carmen Arias, sua babá. Fotos mostram o jovenzinho, ao lado de Arias, sempre agasalhado para evitar a febre amarela incidente naquele entorno selvático.

A babá indígena também contribuiu para mostrar a Ernestito a terrível opressão que sofriam os trabalhadores rurais. Injustiças que ao longo dos anos posteriores, Ernesto Che Guevara procurou reverter.  Com certeza essas duas mulheres não se dissociariam jamais de sua vida. Estão a ele interligadas inexoravelmente.

Missão Jesuítica de San Ignacio Mini, em Misiones foto: Viramundo e Mundovirado

Missão Jesuítica de San Ignacio Mini, em Misiones foto: Viramundo e Mundovirado

Ernestito cresceu marcado pela asma. E esta foi também uma das razões para que seu pai abandonasse o falido projeto de erva mate, deixando o clima úmido de Misiones para se estabelecer no clima seco de Córdoba, mais precisamente em Alta Gracia.

A região de Misiones e Córdoba revela evidências que com certeza reforçaram o caráter contestador e revolucionário de Guevara – as Reduções Jesuíticas. Estas missões jesuíticas guaranis foram uma experiência única, social, cultural e religiosa alicerçadas na educação e na igualdade dos povos.

Museu Casa de Ernesto Guevara, em Alta Gracia foto: Viramundo e Mundovirado

Museu Casa de Ernesto Guevara, em Alta Gracia foto: Viramundo e Mundovirado

 

“… sejam sempre capazes de sentir qualquer injustiça cometida contra qualquer em qualquer lugar do mundo”. Estas palavras estão em destaque na Villa Nydia, onde El Che viveu dos 4 aos 15 anos, hoje Museu Casa Ernesto Guevara, em Alta Gracia.

A sala e os quartos da casa mostram vivências de sua infância e adolescência e são um relato documental e humanista da vida desse revolucionário. Lá estão seus livros de cabeceira, entre eles Robin Wood, El Mundo Americano, e o essencial “Coração”, de Edmund de Amicis.

Ali também estão a bicicleta motorizada “Micron”, na qual atravessou o norte da Argentina e ainda uma réplica da moto Norton, modelo 180HV, que o levou por parte da América do Sul. O acervo inclui também cartas, diários e fotografias. É um espaço que convida a reflexão.

Casa Jesuítica, Córdoba foto: Viramundo e Mundovirado

Casa Jesuítica, Córdoba foto: Viramundo e Mundovirado

 

Córdoba, onde Ernestito completou o curso secundário no Colégio Nacional Deán Funes, é talvez uma das cidades mais fascinantes da Argentina. Além da monumentalidade de suas construções jesuíticas, é sede da primeira universidade do país, fundada em 1610 com o nome de Collegium Maximun, e do Real Colégio de N. Sra. de Monserrat, de 1687.

Fiel à sua origem e vocação, Córdoba se envaidece de ser apresentada com o título de a erudita – la docta. É nessa região cordobesa que se dá o salto qualitativo de Ernestito para seu amadurecimento.

Museu Casa Ernesto Guevara, em Alta Gracia, foto: Viramundo e Mundovirado

Museu Casa Ernesto Guevara, em Alta Gracia, foto: Viramundo e Mundovirado

 

Bem, minha viagem começa a chegar ao seu final. De Córdoba, a família Guevara se transfere para Buenos Aires, para que Ernestito conclua seu curso de medicina na Universidade.

Dali, antes da mítica viagem de moto pelo continente sul-americano, Ernesto, em 1950, percorreria com sua bicicleta motorizada 4500 km pelas províncias noroeste da Argentina. Essa primeira incursão por esta região, uma das mais pobre da Argentina, foi um ponto de apoio para que o personagem El Che se mova, se renova.

Assim se fez meu roteiro. Encontrei El Che, um revolucionário de esquerda preocupado com o sofrimento imposto aos pobres pelo capitalismo, em cada lugar. Foi uma boa viagem, daquelas de fazer você perder o rumo de casa.

Colégio Nacional Deán Funes, Córdoba foto: Viramundo e Mundovirado

Colégio Nacional Deán Funes, Córdoba foto: Viramundo e Mundovirado

Considere quando ir:
Em Córdoba, existem agências que oferecem “Caminos del Che”, percorridos com a moto, partindo dessa cidade em direção ao sul da Argentina e Chile.

Para saber mais:
www.cordobaturismo.gov.ar
www.loscaminosdeche.gov.ar

www.misiones-jesuiticas.com.ar

www.turismo.misiones.gov.ar
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