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Por que chegar ao topo do Everest é só o começo?

Karina Oliani

04 Maio 2018 | 09h30

No ano passado cheguei ao topo no Monte Everest pela segunda vez na vida. Para quem não sabe, é o ponto mais alto do planeta Terra estando a incríveis 8.848m acima do nível do mar.

Pelas rotas convencionais, você pode chegar lá por dois caminhos: a face norte e a face sul. Desde 1953 quando Edmund Hillary e Tenzing Norgay chegaram no local pela primeira vez, diversas pessoas ao redor do globo embarcam nessa aventura para chegar no mesmo ponto. Eu já cheguei, literalmente, no topo do mundo. Por duas vezes. E posso dizer que foi só o começo.

Todo esporte requer uma progressão. A minha historia na escalada começou quando eu tinha 20 anos quando fiz as primeiras vias em rocha da minha vida. Me apaixonei pelo desafio sem fim que esse esporte representa. Fui pra outro tipo de montanha e em 2005 aprendi a escalar em gelo quando morei na Italia.


 

Naturalmente progredi pro montanhismo, que pra mim, é mais um estilo de vida do que propriamente um esporte. Subir montanhas, escalar rocha e gelo, preparar a estrategia para o ataque ao cume, estudar a previsao do tempo, calcular a quantidade de comida e equipamentos e montar a mochila sao apenas algumas coisas que um bom montanhista precisa fazer com perfeicao.

 

Eu sabia que não poderia ser prematura ou dar passos fora do tempo para atingir o topo do Everest. Em razão disso aproveitei cada fase desse aprendizado no alpinismo que me daria experiência e bagagem. Pude exercitar o que estaria por vir em lugares deslumbrantes como o Aconcágua, Alpes, Mont Blanc, Elbrus, varias montanhas bolivianas e peruanas, além de outros picos onde estive.

 

Eu ainda sentia a chegada ao Monte Everest com minhas próprias pernas estava longe quando o destino me prega uma peça. Em 2010 fui convidada para ser a médica de uma equipe de escaladores americanos que tinham o mesmo objetivo que eu. É montada uma equipe desta turma dos Estados Unidos. Fiquei quase tres meses entre os acampamentos base do Everest, tanto na face sul e um mês na face norte, convivendo intensamente com a cultura local do povo Sherpa, pelo qual me apaixonei intensamente.

 

Passados os quatro meses e apos ter feito vários atendimentos, resgastes e ser uma das responsáveis pela saúde dos alpinistas, eu olhei para aquela montanha e pensei: “sinto que está chegando a hora da minha vez de subir até lá!”. Sempre gostei de ser desafiada e superar os meus próprios limites. Este era o próximo grande desafio.

Mas a parte mais dificil de toda a minha escalada talvez foi encontrar um modo de financiar minha expedicao. O Everest é sem duvida uma das montanhas mais caras do mundo e eu nao exatamente tenho o biotipo do montanhista que vai conquistar o topo.

 

Em 2013, tres anos apos eu insistir muito, finalmente consegui montar minha pequena equipe de 4 pessoas para escalar o Everest.

 

Iniciei a escalada aos 30 anos – uma década depois que comecei a minha preparação – finalmente cheguei pela primeira vez ao cume do Monte Everest pela face sul no Nepal aos 31 anos. Comemorei esse aniversario no campo 3, que fica a 7.200 metros de altitude.

 

O motivo de não ter preferido ir pelo norte nesta primeira tentativa era porque na face sul tem menos vento e a subida é menos técnica em relação à outra face norte do Everest. Pelo Nepal, o caminho para acessar o acampamento base ja é uma primeira aclimatacao. Sao aproximadamente dez dias a pé, por um dos trekkings considerados “o mais bonito do mundo”. La não tem carro, moto, nada pelo caminho naquela linda Cordilheira do Himalaia.

 

Quando se vai para uma expedição dessas, a palavra planejamento nao apenas precisa ser levada a sério como se torna uma religiao. Não tange apenas ao preparo físico, mas a tudo: alimentos, oxigenio, equipamentos, logistica, enfim, fiz inumeros checklists com todos os itens que não poderiam faltar na expedicao e na nossa filmagem.

 

Uma falha por falta de testagem prévia ou esquecimento de qualquer artigo não tinha direito a um típico “nossa, me esqueci! Vou ali na loja comprar e já volto”. Aqui a brincadeira é de gente grande e as consequências de um lapso podem impedir sua escalada ou ate ser fatal.

 

O ar rarefeito causa muitos impactos no nosso corpo que vão além da respiração. Estávamos com todo suporte necessário para termos ar em quantidade suficiente para que continuássemos a missão sem grandes perigos nesse quesito. A cada passo que me deixavam mais perto do cume da montanha, eu relembrava cada aprendizado nesses onze anos de montanha e estava sempre atenta para não cometê-los ali. O Everest chega a matar entre 10 a 15 pessoas por temporada, o excesso de amadorismo lá mata!

 

E com uma das vistas mais lindas que se pode ter do teto do mundo, com uma equipe maravilhosa e sentimento de gratidão inexplicável, cheguei ao topo da montanha. Apesar de por um breve momento eu ter sentido que estava no ponto mais alto do mundo do que qualquer ser humano que estivesse com pés no chão, sabem o que eu pensava? Que precisava retribuir ao mundo tudo aquilo de bom que tinha acabado de viver e de conquistar… Foi quando começou nosso projeto social de água e saneamento básico em Patle. Depois viria a se tornar uma escola. E depois o livro Dharma, que hoje é um Instituto e espalha o bem por todo planeta.

 

Enfim, ter escalado a face sul não era o suficiente. Tinha muito mais. Olhei para a outra face – a norte – que é mais técnica, mais difícil e mortal e mentalizava que iria novamente chegar ao topo do mundo, mas pelo outro lado.

 

Como foi minha expedição então pela face norte? Confiram na próxima semana!

Agradecimentos