Seja a mudança que você quer ver no mundo.
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Seja a mudança que você quer ver no mundo.

Karina Oliani

05 Maio 2017 | 17h14

Texto e imagens por Andrei Polessi

Entramos no vale voando bem rente à montanha e o helicóptero começou a chacoalhar, puxando de lado, tomado por um forte vento que soprava sobre o precipício que parecia não ter fim. Visto lá de cima, terrenos cortados em curva de nível desenhavam no cenário um grande mapa topográfico imaginário. Aos poucos se notavam plantações, telhados, casas. Depois animais, e por fim pessoas. Finalmente chegávamos ao Vale de Patle, no Nepal. E antes mesmo de pousarmos eu já avistei – lá em baixo, bem pequena – a nossa escola. Linda, feita de pedra e com vista para o vale todo. Ela era a razão pela qual estávamos ali. Este era o momento com o qual tínhamos sonhado, todos os dias, durante os últimos dois anos.

Logo depois do terremoto que destruiu grande parte da Índia e do Nepal em 2015, a Karina Oliani e eu resolvemos nos unir em torno de uma ideia simples: publicar um livro de fotos destes dois países, onde todo o lucro seria revertido para construção de uma escola no Nepal. Selecionamos então imagens que fizemos durante viagens de 2007 a 2013 e, através de um site de financiamento coletivo levantamos recursos para o livro Dharma, lançado em dezembro de 2015.


O projeto que começou sem maiores pretensões, surpreendentemente teve um sucesso maior que esperado. Não só excedemos em 40% a meta de captação estipulada – o que nos permitiu ampliar o investimento inicial proposto para a escola – mas também atraímos a atenção de muitos parceiros, que quiseram se unir à nossa iniciativa.

Um desses parceiros foi o Gente de Montanha. Empresa especializada em expedições de montanhismo, tem à frente os sócios Maximo Kausch (recordista mundial de ascensão em montanhas acima de 6 mil metros, com mais de 70 cumes conquistados) e Pedro Hauck (número 4 do mundo em ascensões, com mais de 40 montanhas de 6 mil metros no currículo). Faz também parte do time, Maria Tereza Ulbrich, – que claro, além de exímia escaladora com vários cumes de 6 mil na mochila – é a responsável por todo planejamento e logística das expedições.

Brother de longa data, Max nos telefonou e propôs organizar um trekking solidário ao EBC (Everest Base Camp), onde doaria todo o lucro obtido ao projeto: “–Vai ser épico! Vamos encher a trilha do Khumbu de brasileiros e vamos levantar muito dinheiro pro Dharma no Nepal!” – profetizou. “– Confia no seu Tio!”– completou, com seu estilo peculiar de se autointitular “tio” de todo mundo.

A viagem incluiria a opção de uma visita à Patle após o trekking (local em que construímos a escola), onde os participantes poderiam ver de perto o resultado da ação solidária e conhecer pessoalmente a comunidade que seria beneficiada.

Um ano depois desse telefonema, o Vale do Khumbu estava de fato, lotado. “Tio” Max estava certo: foi o recorde de brasileiros numa única expedição na região, somando 44 participantes, mais 14 sherpas. Foram 11 dias entre ida e volta, de Lukla, até o EBC e retornando à Lukla. O total doado chegou a quase US$ 30 mil. Um valor que vai significar, sem dúvida, um futuro de mais possibilidades para as próximas gerações de Patle. Restava agora irmos até lá, finalmente, inaugurar a nossa escola e conhecer de perto essa comunidade.

Depois de ter feito o cume do Everest em 2013 – juntamente com Pemba Sherpa, seu parceiro de escaladas – Karina sentiu a necessidade de ajudar a comunidade local. Enquanto descia a montanha, conversando com Pemba, propôs fazer alguma obra de melhoria em sua vila, localizada em Patle. Uma forma de reconhecimento e retribuição ao povo Sherpa, que entre carregadores e montanhistas experientes, são personagens vitais em qualquer expedição na região. Sem os Sherpas, dificilmente acontecem escaladas. Foi assim que ela financiou com recursos próprios em 2013, obras de saneamento em cinco comunidades do vale, levando água encanada das nascentes – mais de 5km de distância – até as casas, e construindo banheiros comunitários. Depois do terremoto de 2015, a antiga escola da vila de Pemba ficou com as estruturas seriamente danificadas e foi interditada. A construção de uma nova escola, maior e melhor, para que pudesse abrigar mais crianças, se fazia ainda mais necessária. Por tudo isso, Patle foi a nossa escolha óbvia para receber os recursos do Dharma.

Mas construir uma escola num lugar tão remoto, não é uma tarefa fácil. E acredite, Patle é bem remoto. O lugar fica no meio do nada. No interior do interior, do interior do Nepal: fica a 4 horas de caminhada de um vilarejo, de onde se pode pegar uma estrada de acesso, na qual dirigindo por 12 horas, se chega à capital Katmandu (…sim, estou descrevendo o trajeto por experiência própria, pois na volta não teve helicóptero!). Mesmo com esse desafio extra, Pemba assumiu o papel de líder comunitário e gerenciou a construção da obra com maestria: coordenou a burocracia sem fim de liberação de licenças com o governo e o Ministério da Educação, cuidou da logística de mão de obra e obtenção dos materiais (todas as pedras foram extraídas próximas dali, manualmente, uma a uma; as madeiras usadas, são provenientes de árvores locais, serradas também manualmente e depois secadas ao tempo; um trabalho de paciência e muita dedicação que levou mais de um ano!). Não bastasse isso, Pemba viabilizou a construção de uma estrada de mais de 18km para ligar a escola à todo o vale, possibilitando acesso a um número muito maior de crianças. Todas as etapas estavam interligadas, dependendo umas das outras, o que dificultou todo o processo. O que inicialmente foi estimado em 4 meses, levou um ano e meio para ficar pronto.

Mas ficou. E o que é melhor: superou todas as expectativas. A nova escola já tinha este ano mais de 100 crianças matriculadas, contra apenas 30 alunos há dois anos atrás, na antiga construção.

Era tarde de 24 de abril quando descemos o caminho íngreme que leva até a escola. Já de longe, avistamos muitas bandeiras do Brasil decorando o local. Elas se misturavam às prayer flags e a bandeiras do Nepal. Uma centena de crianças nos esperava, junto com pais, moradores, professores, líderes comunitários, e até um Lama. Era uma festa para nos recepcionar e inaugurar a obra. Era a forma daquela gente simples e de sorriso insistente, nos entregar o seu “muito obrigado” de uma forma inesquecível. Uma emoção indescritível. Um momento único.

Entre discursos, danças e música eu não parava de pensar: “Ideias são perigosas. Elas podem, de fato, mudar o mundo”. Afinal, foi assim que tudo aquilo começou. Com uma simples intenção, uma simples ideia. E um ano e meio depois lá estávamos nós vivenciado aquela nova realidade. Lidando com abraços, sonhos e gratidão daquele povo lindo.

Cada livro comprado, cada pessoa que participou de nossa campanha, colocou uma pedra na fundação e nas paredes daquela escola. Na época alguns poucos chegaram até a criticar nossa ação. Acharam um absurdo construirmos uma escola no Nepal, ao invés de ajudarmos crianças no Brasil. Mas em nossa defesa invocamos os filósofos do Altruísmo Efetivo. Pessoas como Peter Singer, que defende teorias avançadas sobre voluntariado e ajuda humanitária e que afirmam que, ajudar o vizinho ou um bebê no Sri Lanka, tem o mesmo valor do ponto de vista prático. Nós acreditamos que não é “um ou outro”, mas sim “um e outro”.Temos é que atacar os problemas em diversas frentes. Afinal, não são ações excludentes, mas sim includentes (tanto que em novembro do ano passado, realizamos pelo Dharma uma expedição médica no sertão do Piauí, onde em nove dias, atendemos mais de 2.000 pessoas, com uma equipe de 23 voluntários).

E que diferença faz você viajar solidariamente! Já oferecendo sua contribuição, automaticamente, ao lugar que te recebe. Retribuindo “real time” ao universo. Do grupo que nos acompanhou ao trekking ao EBC, o voto foi unânime: não há preço que pague saber que sua passagem por aquele lugar, já está contribuindo de alguma maneira para um projeto social de transformação local. Daqueles que nos acompanharam até Patle então, me limito a contar a história de Felipe Paiva, de Belo Horizonte. Ele resolveu ficar em Patle como professor de inglês voluntário. Nos próximos 2 meses você pode encontrá-lo lá dando aulas. Foi “adotado” pelos Sherpas e ganhou o nome de Dawa Sherpa. Sabe-se lá o que significa ser rebatizado com um nome dado pelos próprios Sherpas? É coisa para poucos. Para pessoas especiais como o Felipe, que largou família, amigos e a namorada, pra se dedicar ao trabalho voluntário. Mas o Felipe sabe que no fundo, ele vai aprender muito mais do que vai ensinar. No trabalho voluntário é assim.

Com esta verba obtida do trekking em parceria com o Gente de Montanha, nossa escola vai receber as melhorias ainda faltantes para que possa ficar completa. Os recursos serão usados para construção de carteiras, playground, cantina, banheiros, sistema de geração de energia solar, computadores, alojamento para voluntários, entre outras benfeitorias. Até o final do ano deve já estar tudo pronto. Pemba está ansioso para completar seu projeto – apesar de saber que este tipo de ação quase nunca tem fim. Ele sabe muito bem que a educação é o único caminho para dar um futuro mais digno e com melhores oportunidades para as crianças de Patle. Chance que ele mesmo não teve, quando começou trabalhando como carregador na trilha do Khumbu com apenas 12 anos de idade. Pemba dependeu de muita dedicação e um punhado de sorte para conseguir chegar lá. Trilhou por si próprio os caminhos que o levaram à uma condição privilegiada entre os seus: com sete cumes do Everest no currículo, ele aprendeu a falar inglês sozinho, conseguiu uma condição financeira confortável, já conheceu diversos países e até virou astro de Hollywood, com participação no filme Evereste.

Mas sorte é pouco para o povo de Patle. O legado que Pemba quer deixar é outro, muito mais eficiente e palpável: ele quer educação acessível a todos.

Nesta tarde quente de maio, enquanto escrevo este texto numa praça em Katmandu, observo algumas prayer flags balançarem ao longe. Os budistas acreditam que essas “bandeiras de orações” quando tremulam, jogam suas preces ao vento, espalhando o mantra da compaixão OM MANI PADME HUM pelos quatro cantos do planeta. Eu me pergunto: como duvidar do poder das prayer flags? Como não acreditar na força dessas orações?

Afinal de contas, qual outra explicação para a ajuda ao Nepal ter vindo do outro lado do mundo, de um lugar tão distante como o Brasil? Só posso pensar que, de fato, foi o vento o mensageiro que carregou este chamado. Que foi ele que nos sussurrou no ouvido este pedido. A nós, só nos restava responder com resignação, amor e compaixão. Pois como diz o próprio título deste texto – utilizando a frase de Gandhi –, para mudarmos as coisas, temos que começar por nós mesmos. Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo.

 

+ Info:

www.InstitutoDharma.org / O projeto Dharma agora virou um Instituto Dharma, coordenando várias ações de ajuda humanitária no Brasil e no mundo.

www.GenteDeMontanha.com / Conheça a agência de montanhismo que se propõe a “realizar sonhos”.