Vidas sem fronteiras
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Vidas sem fronteiras

Karina Oliani

21 Julho 2017 | 11h40

Por: Marlise Carvalho

No norte da Índia, uma comunidade de vida simples e sorrisos largos.

Rodeada de montanhas e quedas d’água provenientes do degelo dos picos a paisagem encantadora nos obrigava a parar para admirar e fotografar durante os dois dias de viagem que percorremos por um caminho de pedras num trajeto único feito de carro desde o município de Leh, que fica a 463,9 Km de distância, até o vilarejo de Zanskar, trazendo a companhia do começo ao fim do Rio de mesmo nome, tornando a sinuosa estrada uma das mais belas que já tive o deleite de ver.


Um pouco antes de chegar a 4.010m de altitude, na vila de Rangdum, em uma curva da estrada onde já havíamos nos distanciado dos carros que estavam a frente encontramos um campo verde onde estava acontecendo uma festa budista com música e dança para recepcionar a chegada do 13° Lama. O som dos tambores se misturava ao silêncio grandioso das montanhas e fez com que lágrimas se desprendessem dos meus olhos e dançassem junto com as mulheres lindamente vestidas de chapéus de pedras verdes.

Moldando o ferro quente a marretadas surgem ferramentas e a beira do rio se transforma em pia onde a louça é lavada por mulheres e meninos. O inverno dura nove meses e durante os outros três meses de sol, mas não sem ventos gelados e baixas temperaturas nas manhãs e a noite, os habitantes de Zanskar e das vilas ao redor trabalham para estocar comida e esterco de animais que os manterão aquecidos nos 25 graus negativos que enfrentam todo ano. A vida é levada de uma maneira simples mas com sorriso fácil e olhares  contadores de histórias.

Era uma tarde comum de terça-feira quando uma cinegrafista da GBMGood Blood Media – ligou para a Karina com um convite para participar de um documentário que seria realizado na Índia sobre uma expedição médica da Hands on Global. Dois meses depois daquele telefonema e a Karina já havia reunido um time de dez voluntários que partiriam com ela para outro país, em um outro continente, numa expedição que uniria brasileiros e americanos para além de todas as suas margens socais e culturais e com único objetivo do bem comum.

Vidas sem fronteiras!

Onze vidas. Onze pessoas que deixaram suas rotinas, seus trabalhos e suas casas por 15 dias para cruzar vários limites e praticar a medicina na última área remota da Índia.

O “Dalai Lama Hospital” foi casa durante nossa estadia em Zanskar.  Recebeu-nos em meio a festas e sorrisos e abriu suas portas para o que foram mais de 300 atendimentos com uma equipe de fisioterapeutas, ginecologista, psicólogo, pediatra, médicos e outras tantas pessoas que acreditaram que é possível tornar o mundo um lugar mais justo. O mínimo que podíamos fazer era retribuir com nosso melhor.

A população toda se envolveu, ajudando com transporte e traduções, nos acolhendo em suas residências e mostrando como as formas de viver nesse mundo são infinitas, como o banho pode ser de chuveiro ou de balde ou comer arroz pode ser usando uma colher ou os próprios dedos. Ensinaram-nos sobre gratidão. Uma gratidão que nada tem a dar, além do prazer de ter recebido.

Em nosso terceiro dia de atendimentos a Karina saiu para realizar dois atendimentos domiciliares em uma vila distante uma hora. Retornou já no fim do dia com vinte e duas histórias para contar. Uma delas? Na vila toda existe um telefone, daqueles pequenos e redondos, de discar, onde todos os moradores aguardam ansiosos algum telefonema…

Voltamos para a estrada com destino a Leh e, naquele dia 8, um sábado, às oito horas da manhã, Vossa Santidade, o 14° Dalai Lama, nos concedeu uma audiência em sua residência. Tivemos a honra de ouvi-lo falar sobre a compaixão, que na hierarquia dos sentimentos é o sentimento supremo. Ele nos ensinou que todo sofrimento merece compaixão.

Ele nos agradeceu pessoalmente pelos atendimentos realizados. Mas éramos nós que nos sentíamos eternamente gratos por tudo aquilo que vivíamos. Talvez não existam palavras possíveis para explicar qual a sensação sentida ao segurar a mão e olhar nos olhos bondosos daquele homem de mais de 80 anos. De rir com ele e de tentar entender, com todas as nossas forças, sobre a generosidade, a virtude do dom. Portanto deixo aqui, meus cumprimentos, minha chegada a esse mundo, meu até logo e toda minha gratidão:

“Julley!”

 

FOTOS:

Marlise Carvalho

AGRADECIMENTOS:

Instituto Dharma (www.institutodharma.org)

Canon (http://www.canon.com.br/)