A pergunta que não quer calar

A pergunta que não quer calar

Bruna Tiussu

02 Outubro 2017 | 12h00

Últimas horas em Kumasi, com os alunos favoritos. Foto: Eduardo Asta

Dá pra ajudar de verdade numa experiência voluntária? Esta questão me acompanha desde quando decidi fazer as malas para vir à África. Nestes quase três meses em Kumasi ela chegou a perturbar bastante. E também me deixou em paz por dias seguidos.

Novamente de malas prontas, agora rumo a Uganda, minha resposta para a pergunta é sim. Só depende do foco que você dá para a sua jornada.

Escolhi começar como voluntária numa escola por acreditar na educação como única via para grandes mudanças. Também por essa razão, voltei os meus esforços aos agentes das próximas mudanças: as crianças — aqui, uma galeria de fotos especialzinha delas e de alguns momentos na Furman Foundation:


Viajantes com Causa em Gana
Bruna Tiussu/Estadão

Escola escolhida para voluntariar: Furman Foundation School, em Kumasi, Gana

Pois tentar alterar/melhorar a escola como instituição é um desafio muito complicado para um curto período de vivência. As diferenças culturais são gritantes. E devem ser respeitadas. Os ganenses tomam decisões pensando mais no hoje do que no amanhã e têm um ritmo de ação menos acelerado do que o nosso. E quem sou eu para chegar dizendo que fazer assim ou assado é melhor?

Mas com as crianças a sensação é diferente. Os ensinamentos na sala de aula, as conversas, as brincadeiras e a troca de afetos são como sementinhas plantadas em suas cabeças. E que vão florescer no futuro (pelo menos algumas) como insights, curiosidades afloraras ou conhecimento adquirido mesmo.

Já tive indícios disso. Alguns exemplos:

1. O dia em que Kwabena me pediu para ensiná-lo outra canção dos Beatles — em minha primeira aula de música eles aprenderem Here Comes the Sun e nem sabiam que banda era essa

2. Quando Juliana fala “I am going”, como a ensinei, e não mais “Me is going”, como muitos alunos da escola dizem

3. A aula de artes em que pedi que desenhassem a profissão que desejam seguir e Jenel a colocou pilotando um avião — três dias atrás eu havia lhe contado que no Brasil há mulheres engenheiras, mecânicas e até pilotos

4. As inúmeras vezes em que Jeff me fez perguntas sobre dinossauros e pediu para ver fotos no celular, depois de termos lido um livro sobre eles — os professores ensinam que os dinos não existiram. Criacionistas, eles não acreditam na teoria da evolução

São cenas pequenas, mas de uma importância enorme diante do esforço (físico, mental e emocional) alocado nestas crianças. Sempre que a dúvida batia sobre estar sendo útil aqui, eu me agarrava a alguma delas. E pensava: ao menos vão crescer sabendo quem foram os Beatles.