A transformação pela arte

A transformação pela arte

Camila Anauate

17 Outubro 2017 | 12h00

Mais do que deixar para trás suas casas, suas roupas e toda uma sorte de bens materiais, os refugiados perderam suas identidades. Viram partir amigos, dividir famílias, perder profissões. Se os adultos que lidam (ou tentam lidar) com a situação carregam marcas de sofrimento, as crianças parecem não entender muito bem tudo o que acontece. Parecem.

Talvez elas não saibam falar exatamente sobre como se sentem. Crianças são crianças e querem brincar – no centro comunitário, elas têm direito e tempo de sobra para diversão. Mas é nesse lugar que elas também aprendem outras formas de expressão.

A Fany (de novo ela aqui nos meus posts!) é a educadora social e missionária que cria, desenvolve e lidera os projetos das aulas de artes e circo. A cada trimestre, ela trabalha um tema que ajude os pequenos refugiados a saber quem são, a lembrar de onde vieram e a desejar um futuro melhor. Ela vê na arte uma poderosa ferramenta de transformação.


“Com o tema identidade, por exemplo, desenhamos a árvore genealógica de cada aluno, já que muitas famílias se separaram no processo do refúgio”, explica Fany. Outro exercício foi dar uma foto pela metade do rosto de cada um deles – e pedir que completassem da forma como se enxergam. Para fechar o tema, os alunos receberam mapas de três países – onde vivem hoje (Jordânia), onde nasceram (Iraque) e para onde vão se aceitos (Austrália e Canadá) – e desenharam dentro de cada um suas vidas, suas lembranças e seus sonhos.

O resultado foi de arrepiar. Como não se emocionar com o mapa do Iraque do menino Yussef todo vazio, mas com bonecos do Estado Islâmico armados ao redor, enquanto no da Jordânia ele traz a casa para dentro das fronteiras e no da Austrália ele imagina um campo de futebol. Ou com a cara-metade da Nina, um belo e colorido abstrato quase cubista.

Todos os trabalhos ficam expostos nas paredes do centro comunitário, para que eles se orgulhem do que produzem. Enquanto estive lá, o tema era reciclagem e sustentabilidade. “A sociedade trata o refugiado como lixo. Ao aprender sobre reciclagem, os alunos percebem que tudo pode ter um final diferente, uma nova utilidade, ficar mais bonito”, ressalta Fany. E lá surgiram cachorrinhos de lata de alumínio, puffs de garrafas pet…

O maior alvoroço é na aula de circo: todo mundo querendo subir no laço ou na lira. Circo é trabalho corpo, é respeito, é superação de limites.

Enquanto absorvem cada uma e todas essas mensagens, as crianças se divertem para valer com as atividades. Parecem entender. É uma delícia ver o ensino pela brincadeira, a transformação pela arte. Acompanhar cada aula resgatou um pouco de mim também.