‘Aguentei oito meses. Imagina quem fica dez, vinte anos’

Você está acostumado a ler aqui minhas histórias de viagens. Hoje, peço licença para contar a história da Patrícia*

Camila Anauate

08 Março 2018 | 03h00

Foto: Arte/Estadão

Geralmente você lê sobre nossas viagens aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Patrícia*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Consegui sair de uma relação abusiva que durou oito meses, mas minha vida nunca mais foi a mesma. Ele era meu namorado, não vivíamos juntos, não dependia financeiramente dele. Nós dois viemos de famílias tradicionais e instruídas.  A violência doméstica não atinge só as classes mais baixas, mas todos nós. Não escolhemos viver isso e nunca sabemos quando vai acontecer.


Quando começamos a namorar, em uma cidade pequena, onde todos se conheciam, eu só tinha boas referências dele. E, de fato, ele era ótimo, companheiro, parceiro. Mas foi se transformado. Quando tivemos nossas primeiras divergências, começaram os xingamentos. ‘Piranha’, ‘puta’. Ele dizia que eu o estava traindo e fazendo coisas que jamais fiz. Que a culpa era minha. E eu pensava se realmente não havia feito nada errado.

A gente se culpa.

Aconteceu uma, duas, três vezes. Em uma dessas brigas, estávamos viajando e ele escondeu a chave do meu carro e me deu um remédio para dormir para eu não ir embora. E então forçou uma relação sexual comigo. Esse relacionamento acabou, para mim, naquele dia.

Depois disso, foram mais três meses de chantagens emocionais. Ele ameaçava se matar e dizia que a vida dele havia acabado sem mim. Foram chantagens muito pesadas, procurei ajuda psicológica para me fortalecer.

Até o dia em que ele fez um escândalo e disse que acabaria com a minha vida também. Pediu para eu devolver todos os presentes que ele já havia me dado e ameaçou divulgar fotos minhas íntimas. Fiquei muito nervosa. As chantagens fizeram eu tomar a atitude de ir à delegacia e denunciar.

Registrei a ocorrência. É um árduo caminho porque, na delegacia, tive de contar a história toda para um homem, minha intimidade exposta; recebi olhares e ainda ouvi uma ‘brincadeira’ de que a culpa era minha porque eu era linda e deixei o meu namorado louco.

Precisei fazer dois BOs antes de a denúncia chegar ao fórum e eu pedir a medida protetiva. Para minha surpresa, o juiz recusou. Fui ao fórum novamente, procurei a promotora da vara criminal aos prantos, porque estava realmente com medo de ele me matar. Foi só depois da intervenção dela que consegui a aprovação da medida.

Foi um caminho bem árduo, longo e doloroso. Nunca divulguei essa história, apenas família e amigos íntimos sabem. Sou totalmente traumatizada, ando com medo até hoje. Mas estou aqui para encorajar outras mulheres. Conseguir a medida protetiva sem morar com ele foi uma vitória para mim. É preciso acabar com o abuso e a certeza da impunidade. Aguentei oito meses. Imagina quem fica 10, 20 anos?

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.