Às mestras, com carinho

Às mestras, com carinho

Camila Anauate

05 Outubro 2017 | 17h40

Miss Silva é uma menina tímida de 16 anos, cabelo Rapunzel, olhar cansado, jeito doce. Madura e inocente, responsável e adolescente. Conduz, sozinha, a classe dos mais novinhos no centro comunitário com tamanho amor e paciência como nunca vi.

Talvez porque só ela entende quem aquelas crianças são, o que passam, como se sentem. Miss Silva chegou à Jordânia aos 13, fugida com a família do Iraque, onde viu sua casa virar cinza. Vive no eterno “enquanto isso”. Enquanto não pode voltar ao seu país, enquanto não consegue visto para a Austrália, enquanto não entra na universidade, enquanto os anos passam.

Com ela chorei ao ver fotos de sua amada cidade Mossul destruída, ao falarmos sobre o futuro. Com o silêncio como resposta sobre seus sonhos. Com a simples e genuína metáfora de que o Iraque é sua mãe e a Jordânia, o marido.

“Aqui a vida é difícil, não é meu país, não sou jordaniana, há muita discriminação”, me explica. “Penso que na Austrália não será diferente”.


Miss Silva passava o dia em casa até conhecer o centro comunitário, no momento em que o projeto precisava de alguém que falasse árabe e inglês para assumir uma classe. Poder ajudar as crianças de seu país e estar entre elas, todos os dias, recebendo tanto carinho, preencheu sua vida.

O “enquanto isso” fica muito mais leve quando ela coloca música em inglês para as crianças, ensina como escrever os números em árabe, gargalha com perguntas e exclamações de que só as crianças são capazes. Ela mesma vira uma quando se junta a outras meninas da sua idade nas aulas de circo da Fany para adolescentes, “paquera” meninos na sorveteria ou no futebol.

No centro comunitário, Miss Silva recebe todo apoio da Miss Najat, uma mulher de 43 anos, também iraquiana, também refugiada, também disposta a ajudar as crianças do seu país – ela é responsável pela sala dos maiores.

A Miss Najat eu conheci no dia em que ela soube que a Austrália negou seu visto, do marido e dos dois filhos. Uma tristeza só. Já são dez meses na Jordânia, a maior parte deles contribuindo com o centro comunitário. Ela é gentil, calma, delicada e mais reservada. Não me contou muito sua história, mas vive da esperança que não a deixa desistir.

Miss Silva e Miss Najat recebem uma ajuda de custo mensal da organização por seu trabalho e dedicação.

A história da Miss Rawan é diferente. Ela é jordaniana mesmo, professora de inglês formada, com emprego formal em escola pública. Mas resolveu dedicar seus dois meses de férias de verão (julho/agosto) a ensinar refugiados, voluntariamente, no nosso centro comunitário. No auge da maturidade de seus 23 anos, fala sobre dar amor, encorajar e ajudar crianças na fase mais importante de suas vidas.

Miss Rawan já não está mais lá, mas deixou um legado valioso. Enquanto isso, Miss Silva e Miss Najat seguem firmes e fortes. E eu, nos meus dias de “professora” no centro comunitário, aprendi muito mais sobre a vida com cada uma delas.