Ashantis em festa

Ashantis em festa

Bruna Tiussu

07 Agosto 2017 | 12h35

    Osei Tutu II, atual rei Ashanti. Fotos: Eduardo Asta

Era uma vez um povo muito poderoso chamado Ashanti. Acredita-se que migraram da área da atual Mali para a atual Gana no século 13. Outros dizem que seus primeiros indivíduos surgiram de um buraco na terra, próximo ao Lago Bosomtwe. E há os que afirmam que eles simplesmente caíram do céu. Talvez por isso vieram assim tão fortes, a ponto de serem os únicos a dominar quase todo o território ganense e a criar resistência frente aos ingleses na era colonial, no século 19.

Hoje, seus descendentes se concentram na região central do país, cuja capital é Kumasi, a cidade onde estou morando. Para minha sorte, eles mantêm muitas de suas tradições, crenças e festas — e se autodenominam tradicionalistas, que, assim como o cristianismo e do islamismo, é uma das três religiões oficias de Gana.

O calendário Ashanti é dividido em nove ciclos de 42 dias, os Adaes. A cada Adae, eles celebram e agradecem aos deuses no chamado Akwasidae Festival. De novo para minha sorte, pude conferir um Akwasidae há alguns dias.


O evento tomou conta do Manhyia Palace, espaço construído em 1926 e principal templo Ashanti na cidade, e era aberto ao público. Foi a primeira vez que vi mais de 20 brancos juntos aqui — havia de convidados políticos a turistas.

Tradição Ashanti
Bruna Tiussu
Tradição Ashanti

Parte dos integrantes da festa com instrumentos musicais tradicionais 

Vestindo lindos kentes coloridos e geométricos, anéis e sandálias especiais, os Ashantis ali presentes só poderiam ser das classes mais abastadas da sociedade. Eles se acomodavam de acordo com suas idades e importância na comunidade — há chefes, subchefes, guardas e outras divisões. Os mais importantes tinham um “auxiliar” segurando um enorme guarda-sol protegendo-os.

Com grupos cantando e tocando tambores naquela típica cena africana que temos na cabeça, todos esperavam a chegada dele: o rei. Pois os Ashantis ainda têm uma família real, de onde os deuses elegem um representante-mor de tempos em tempos. Osei Tutu II, rei desde 1999, foi ovacionado com mais cantoria e batuque quando chegou, com tantos soldadados ao seu redor que quase não consegui ver sua cara.

Depois de acomodado, abençoou as pessoas autorizadas a se aproximar, escutou demandas da comunidade e ganhou centenas de presentes — em sua maioria uísque e schnapps, a aguardente usada nos cultos. Aqui, o rei exerce forte influência junto aos políticos e os Akwasidae funcionam como uma reunião da comunidade. Mais tarde fiquei sabendo que ele também tem um lado civil convencional, Osei Tutu II é um homem de negócio, dono de uma empresa de ônibus e de uma escola técnica.

Lá pelas 15:30, a música ficou mais alta e o rei preparou-se para sua despedida. Só neste finzinho consegui vê-lo mais de perto, reparar em suas enormes pulseiras de ouro e na curiosa coroa que usava. Sua feição era de uma serenidade impecável. Ele caminhava e agora dava atenção a qualquer Ashanti que se aproximava. As pessoas queriam a bênção dos deuses, o toque do rei em suas testas. Pois é assim que para eles começam em paz um novo ciclo de seu calendário.