Dinheiro x Educação

Dinheiro x Educação

Bruna Tiussu

17 Agosto 2017 | 12h09

 

Atividade de desenho durante a Summer School. Foto: Bruna Tiussu

Amanhã completamos duas semanas de Summer School. Como o ano letivo na Furman Foundation terminava no dia 3 de agosto e nós somávamos oito voluntários, os diretores acharam uma boa ideia organizar aulas mais lights/criativas durante as férias — já que os alunos preferem muito mais estar na escola do que em casa.

Nos dividimos, então, segundo nossas habilidades e disponibilidade e montamos uma “time table for fun”, com aulas de artes, esportes, costura, foto, vídeo, teatro e música. Todas disciplinas que não constam na grade comum. Organizamos ainda uma sala de jogos, com carrinhos, quebra-cabeças, lego, desenhos para colorir e muitos outros brinquedos que cada voluntário trouxe de seu país.


Às vésperas do início da Summer School, nossa empolgação era enorme. A dos estudantes aparentemente também. Porém, alguns já sinalizavam que não participariam por causa do custo. Como qualquer outro lugar, a escola precisa pagar contas, por isso decidiu-se cobrar de cada criança 2 cedis por dia (o equivalente a R$ 1,50). No período de aulas elas pagam 2,50 cedis, usados para custear almoço, energia elétrica, água e salário dos professores — o próprio aluno traz o dinheiro e paga a cada manhã para a professora responsável.

Alunos pagam a taxa diária da escola. Foto: Bruna Tiussu

Dos 90 estudantes regulares, somente 13 apareceram no primeiro dia das aulas criativas. No segundo, 12. Os diretores aceitaram, então, cobrar apenas 1 cedi por dia. Crianças da vizinhança também puderam participar, o que resultou num público médio, durante estas duas semanas, de 20 alunos diários.

O lado positivo deste montante é que conseguimos dar mais atenção a cada criança durante as aulas. E isso é muito construtivo para elas. Os pequenos ainda conseguem experimentar melhor os brinquedos da sala de jogos, objetos que simplesmente desconhecem e que fazem seus olhinhos brilharem de um jeito todo especial.

O lado negativo é tomar conhecimento de que 1 cedi faz diferença na vida diária de uma família de Afrancho-Kumasi — para efeito comparativo, um pão de forma custa 2 cedis. Ou talvez de que os pais prefiram gastar este 1 cedi em outra coisa e não em educação extra para os filhos.

A movimentada (e bagunçada) sala de jogos. Foto: Bruna Tiussu

Existem outros dois aspectos, agora de cunho mais sentimental, que me incomodam neste cenário. O primeiro é que já conheço um pouco dos alunos da escola e sei que muitos dos ausentes têm um belo talento para trabalhos artísticos. Outros, uma habilidade musical fantástica. E alguns pirariam na chance de aprender melhor basquete e futebol. O segundo fator, ainda mais particular, é a saudade. Há 15 dias sem ver algumas das crianças percebo o quanto eu já estou ligada a elas.