Em excesso não pode ser bom

Em excesso não pode ser bom

Bruna Tiussu

16 Novembro 2017 | 12h28

Desenho da Cabrine, aluna da quinta série. Foto: Bruna Tiussu


Pedi aos alunos do primário 5 que desenhassem atividades relacionadas à cultura ugandense. Tiveram vários pescadores, muita gente arando a terra, plantando e cuidando do gado, uma colorida cerimônia de casamento na igreja e um casal de jovens fumando e bebendo álcool.

Este último desenho fez toda a classe rir — lembrem-se que os alunos são todos cristãos. Mas que ele está inserido na cultura local é fato.

Espécie de bar/armazém onde se vende obuchera. Foto: Eduardo Asta

Pelo menos a parte do álcool é perceptível aqui, in the middle of nowhere do sul do país. As estradas de terra podem não ter mercadinhos e restaurantes, mas sempre têm uma portinha indicando a venda de obuchera, a cerveja local.

Feita de sorgo, ela pode ser bastante alcoólica ou fraquinha, depende do modo de preparo. E normalmente os ugandenses a tomam em grandes jarras — cada um com a sua.

Também gostam muito de waragi, o destilado típico do país. Feito com matoke (um tipo diferente de banana), ele é vendido em garrafa ou sachê de 100ml, que custa a partir de 1000 shillings (menos de R$ 1). Acessível, portanto até para as classes baixas.

Sachê de waragi, vendido em toda esquina. Foto: Bruna Tiussu

Nossa região, a do Lake Bunyonyi, é a prova disso. As mesmas estradas de terra que conectam as vilas estão sempre cheias de saquinhos de waragi vazios, descartados pelos próprios moradores.

É comum ouvir por aqui que um pai de família pode não ter dinheiro para a taxa da escola do filho, mas para o waragi ele tem. E mesmo para os jovens, ainda sem renda fixa, não é tão difícil arrumar 1000 shillings para comprar um sachê da bebida.

Bar típico das pequenas vilas rurais de Uganda. Foto: Eduardo Asta

O alto consumo de álcool em Uganda já foi destaque em várias pesquisas. Em 2014, um estudo da CNN colocou o país na oitava posição na lista das nações que mais ingerem álcool. Na frente da Alemanha, por exemplo. E se considerarmos só o continente africano, Uganda assume a liderança.

Novas leis para regulamentar a venda de bebidas está constantemente na pauta do governo. Assim como novas regras que determinam o tipo de marketing permitido às marca, que nos últimos anos têm como público-alvo os jovens. Mudanças ainda são necessárias, pois o consumo massivo de álcool é um comprovado obstáculo para o desenvolvimento do país.