Estômago em xeque

Estômago em xeque

Bruna Tiussu

10 Agosto 2017 | 14h05

Almoço na escola: arroz, feijão e molho picante. Foto: Bruna Tiussu

Nunca fui tão feliz com meu estômago mega resistente. Amanhã completo um mês em Gana sem ter passado por nenhum perrengue da categoria dor-de-barriga-banheiro-urgente. Já meus colegas também voluntários…

Mas confesso que o país tem desafiado meu organismo — e sobretudo meu paladar — a cada dia. Além das dificuldades sanitárias, que fazem você desconfiar de qualquer refeição preparada por terceiros, a comida local também mexe com meu corpo, física e psicologicamente.

Almoço todos os dias na escola, assim como os alunos. A refeição-base é arroz branco com molho picante (tomate, temperos, cebola e pimenta). Às vezes, esse molho ganha um upgrade com a adição de pedacinhos de peixe defumado ou de carne. De vez em quando, o arroz branco dá lugar a uma mistura de arroz e feijão, que também ganha uma colher do molho do dia.


E raramente o almoço é banku, prato típico daqui que consiste numa bolota (uma espécie de purê mais resistente) feita de milho fermentado e mandioca. Ele acompanha uma sopa de quiabo, tomate, cebola, pimenta e temperos, e o jeito certo de se comer é puxando um pedaço da bolota com a mão para mergulhá-lo na sopa.

Banku acompanhado de sopa de quiabo picante. Foto: Bruna Tiussu

Eu amo provar a comida do lugar onde estou, é parte essencial da experiência que busco. Sempre senti prazer conhecendo a gastronomia de cada canto por onde passei. Mas em Gana, confesso, a estranheza é maior do que o prazer.

As texturas do banku e de sua sopa, por exemplo, são grandes desafios para mim. O mesmo acontece com o fufu, bolota semelhante ao banku, feita de mandioca e banana-da-terra, e comumente acompanhada de sopa picante de amendoim. No caso destes pratos ganenses, o segundo desafio é o nível da picância, sempre acima da minha tolerância costumeira.

Também não é, digamos, gostoso, comer praticamente todos os dias a mesma coisa — no caso, arroz. Já as crianças não parecem se importar, elas comem arroz inclusive no café da manhã. Sinto ainda a falta da carne, que, fora frango, é iguaria de luxo. Mas o que mais me aflige é a ausência de salada e legumes, algo que em algum momento meu organismo vai sentir. Até hoje, consegui comer repolho, tomate, pepino e cenoura em poucos restaurantes mais arrumadinhos.

Frutas à venda na via principal do bairro da escola. Foto: Bruna Tiussu

Minha alternativa é suprir essa falta com frutas, felizmente em abundância aqui. Banana, mamão-papaia, maçã-verde, manga, laranja e abacaxi são as mais comuns e as mais gostosas. A manga merece atenção especial: existem algumas gigantes, muito maiores que as do Brasil e bastante saborosas.

E a saída para fugir da mesmice é arriscar, aqui e ali, uma comida de rua. Já provei arroz jollof (misturado com vegetais picadinhos e molho de tomate), num chop bar, a categoria mais simples de restaurante. Também encarei um mingau, um frango frito, um suco natural, alguns ovos, uma torta de carne (espécie de empanada, mas na que comprei esqueceram de botar a carne) e um bofrot (rosca redonda frita no azeite de dendê) de vendedores de rua.

Comidas de rua: bofrot e torta de carne. Foto: Bruna Tiussu

Nestas horas estou sempre sozinha. Às vezes recebendo olhares cheios de julgamento de meus colegas. Porque eles, coitados, não podem confiar em seus estômagos como eu confio no meu.

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