Lições sobre o refúgio

Camila Anauate

01 Agosto 2017 | 14h25

Os nove que venceram o Estado islâmico é o nome deste vídeo. Vamos começar por ele: são dez minutos de angústia, tristeza e esperança. Dez minutos necessários para ter uma breve ideia da situação dos iraquianos cristãos na fuga de seu país por perseguição religiosa.

O vídeo foi gravado aqui na Jordânia pela MAIS Oriente Médio (Missão em Apoio à Igreja Sofredora), que desde 2014 mantém projetos de ajuda humanitária e desenvolvimento comunitário para refugiados na região. Esses nove sobreviventes são apoiados pela organização. Eu convivo com alguns deles há três semanas.

Só quando cheguei aqui aprendi mais sobre a situação específica dos iraquianos. Sobre os sírios eu sabia um pouco mais: li livros, assisti a documentários, vi notícias na televisão*. Sírios e iraquianos são maioria onde estou. Com eles aprendo dia após dia.

Mas antes de narrar minhas experiências aqui, um pouco de contexto é fundamental.


Você sabe o que é um refugiado?

Os refugiados são pessoas cujos direitos humanos estão ameaçados. Podem estar em zonas de guerra, sofrer perseguições política e religiosa, correr risco de morrer. Alguém que migra apenas em busca de melhores condições de vida, por exemplo, não é um refugiado.

Os iraquianos há décadas fogem de seu país. A mais recente onda começou em 2014, quando o Estado Islâmico passou a ocupar cidades cristãs (principalmente Mossul e arredores), obrigando seus habitantes a se converterem ao Islã – ou seriam mortos. Desde então, iraquianos cristãos se espalham principalmente por países vizinhos, como Líbano, Turquia e Jordânia.

Os sírios vivem uma de suas piores guerras desde a Primavera Árabe, em 2011. Eles viram suas casas, seus negócios, cidades inteiras destruídas. Viram seus familiares e amigos morrerem e fugiram sem opção.

E a Jordânia? Um país neutro na terra dos conflitos sem-fim, a Jordânia sempre abriu suas portas aos vizinhos. A ponto de, hoje, dos 9,5 milhões de habitantes, 3 milhões serem refugiados – 2 milhões de sírios e 1 milhão de outros países como Iraque, Líbia e Egito.

Mas com a crise que não acaba, a Jordânia chegou ao limite de sua infraestrutura e fechou suas fronteiras. Apenas 300 mil dos 3 milhões de refugiados vivem hoje em campos controlados pela ONU – o Zaatari é o mais famoso deles. Os outros 2,7 milhões estão espalhados pelo país.

Quem aqui se refugia depende da ajuda de organizações e pessoas. Quem chegou primeiro ainda conseguiu acesso ao sistema jordaniano público de saúde e educação, mas a maioria não tem hospital, não vai à escola.

Todos procuram desesperadamente trabalho para pagar aluguel e comprar comida. Fazem bicos em supermercados, restaurantes, construção e muitas vezes são enganados e não recebem o combinado. Ainda sofrem discriminação.

Nenhum refugiado quer estar onde está – nem a palavra refugiado gostam de usar, eles são “visitantes”. Ninguém teve opção. Todos vivem uma (eterna) espera: de voltar para casa e reconstruir a vida ou recomeçar em outro lugar.

*Para entender mais:

Livros:

Dias de Inferno na Síria, do jornalista Klester Cavalcanti, que foi preso e torturado na Síria
Estranhos à nossa porta, do pensador polonês Zygmunt Bauman

Documentários (Netflix):

Salam Neighbor
Os Capacetes Brancos

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