Marcas de uma guerra

Marcas de uma guerra

Camila Anauate

15 Agosto 2017 | 14h08

A iraquiana Mariam carrega no corpo as cicatrizes da guerra em seu país

Meu primeiro choque aconteceu logo na primeira visita ao projeto Gera MAIS, de empoderamento das mulheres refugiadas. Ali conheci Mariam, uma menina linda de 28 anos, que carrega no corpo as cicatrizes de uma guerra.

Mariam foi vítima de um bombardeio em 2010, quando estava a caminho da universidade em Mossul, no Iraque. Já perdeu as contas de quantas cirurgias fez para retirar estilhaços de seu rosto e peito – e ainda precisa de mais.

A explosão foi um ataque contra cristãos em um país de maioria muçulmana. “Não entendo por que nos odeiam tanto. Nos atacam, sequestram e matam sem qualquer razão”, desabafa. Ela ainda teve sorte: duas pessoas perderam a vida naquele dia.


Depois do acidente, Mariam decidiu continuar na mesma cidade nos arredores de Mossul, o lugar onde nasceu, à espera de paz. Mas a situação só piorou. Em 2014, o Estado Islâmico invadiu o local, destruiu tudo, todos fugiram. Cada um para um lado, famílias inteiras se separaram. A de Mariam se dividiu entre Curdistão, Líbano e Jordânia.

A mãe e um dos irmãos, que viviam no Líbano havia 2 anos, conseguiram visto definitivo para Austrália e se mudaram há três meses. O outro irmão, que mora na Jordânia, espera o mesmo visto há dois anos e meio. E Mariam, que ficou no Curdistão com o marido e a filha de três anos, está agora na Jordânia para entrar com o pedido de visto na Embaixada da Austrália. Ela não faz ideia de quanto tempo pode esperar – nem se terá uma resposta positiva.

Na véspera de nosso encontro, o governo do Iraque anunciou a retomada de Mossul. “A notícia é ótima, mas não estamos prontos para voltar, ainda temos muito medo”. O futuro? Um sonho? “Apenas recomeçar, ter uma vida normal, como qualquer outra pessoa, em qualquer outro país.” E em paz.

Enquanto conversamos, observo seu olhar doce, seu sorriso sincero, e aprendo uma grande lição de coragem e superação.