Minha escola, minha vida

Minha escola, minha vida

Bruna Tiussu

31 Julho 2017 | 13h53

 

Algumas das crianças que permanencem na escola após as aulas. Foto: Bruna Tiussu

O combinado era trabalhar seis horas diárias na Furman Foundation School. Mas na realidade trabalho pelo menos o dobro disso. Não se trata de uma reclamação, é a simples constatação do quanto as crianças daqui demandam dos professores de suas escolas.

Os alunos começam a chegar por volta das 6h45, ainda que as aulas comecem às 7h30. O garoto responsável pelo sino dá as badaladas finais às 15h15, porém, aquela clássica cena da meninada correndo e gritando portão afora não existe aqui. As crianças não querem ir embora. E muitas simplesmente não vão.


A explicação é óbvia: eles não têm o que fazer em casa. Já na escola, têm uns aos outros; num dia de sorte, uma bola ou um jogo; e, quase todos os dias, nós, os professores voluntários — atualmente somos sete, acomodados em duas salas que funcionam como quarto e sala de estar/jantar.

Portanto, depois das 15h15, eu começo uma nova jornada de trabalho com aqueles que passam a tarde aqui. As atividades vão de meros bate-papos a jogos de memória ou basquete, passando por exibição de filmes no tablet.

Às vezes, elas variam mais: numa outra sala da escola moram Ralph — um aluno de 10 anos que está dormindo aqui para poder assistir às aulas, já que seus pais se mudaram para longe — e um casal e seus dois filhos (Ama, 3 anos, e Pablo, 9 meses) — em Gana, é comum ceder espaço de uma casa ainda em obras para uma família que, em troca, “cuida” do lugar. Pois também invisto um tempo ajudando a entreter estes três pequenos.

Eu e a pequena Ama, que já aprendeu a imitar meu sorriso. Foto: Bruna Tiussu

Para conseguir fazer as minhas coisas, tipo, lavar roupa, ler e escrever para este blog, tenho que falar, bem séria: “agora estou ocupada e não posso jogar nada!” Sem me abalar com a carinha de desapontamento deles.

Na semana passada, comecei a pular corda e a fazer exercícios com uma “fit band”, o que deu pra trazer no mochilão — e porque, né, a dieta cheia de carboidratos daqui preocupa. Tentei no pátio e no segundo pulo tinham quatro crianças ao meu redor puxando a corda. Fui vencida.

Na tarde seguinte, corri escondidinha para uma sala de aula no primeiro andar e fechei a porta cuidadosamente. Abri mão do som e transformei aquele espaço em minha academia particular e silenciosa. Deu certo! Bora ver até quando.

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