Nas casas do refúgio

Nas casas do refúgio

Camila Anauate

05 Setembro 2017 | 12h30

Randa, 28, viúva da guerra na Síria, com os três filhos: ‘quero ser voluntária para ajudar outros refugiados’

Youssuf foi o primeiro refugiado que conheci, o primeiro a me dar abertura para perguntar, a me ensinar mais sobre os conflitos no Oriente Médio, a me explicar como a organização MAIS atua na ajuda humanitária.

Ele mesmo, um jovem muçulmano convertido a cristão, fugido do Iraque de Saddam Hussein, com quem seu pai trabalhou, é um dos principais voluntários que coordenam as visitas às casas dos refugiados, especialmente as dos sírios muçulmanos.

“Somos uma família, todos se ajudam”, disse no nosso primeiro minuto de conversa. E continuou explicando: “Nas visitas, mais do que levar cesta básica ou fraldas, eu quero saber como todos estão e quero que se sintam acolhidos, queridos, lembrados”.


Toda semana, novas famílias de refugiados chegam a Fuheis ou Mahes. O boca a boca as leva à sede da organização MAIS, ou a MAIS a elas. Sírios muçulmanos, iraquianos cristão, não importa: todos estão fugindo de algo e em busca de qualquer apoio.

A primeira visita é para conhecer as pessoas e entender seus contextos. Então elas são registradas e passam a receber voluntários e missionários da MAIS em casa periodicamente – para uma cesta básica, uma fralda, um ventilador, um sofá, uma atenção que seja. Youssuf conhece todas.

Foi com ele que eu fiz as minhas mais emocionantes visitas – e essa é uma das atividades mais impactantes para os voluntários de curto prazo, como eu, porque temos a oportunidade de conhecer e conversar com essas pessoas dentro de suas casas. Youssuf traduz do árabe para o inglês, nos ajuda a entender as histórias e nos deixa à vontade para perguntar ou dizer o que a gente sentir que deve.

Para Randa, 28, viúva da guerra na Síria, mãe de três filhos, eu disse que sentia orgulho de ver sua força. Ela me conquistou de cara com seu sorriso fácil – e sua história: há quatro anos, o marido não quis lutar pelo exército do governo e foi morto. Ela e toda a família entraram para a lista negra e tiveram de fugir – para nunca mais voltar. O pai foi a pé e a nado para a Alemanha, passando por Líbano, Turquia, Grécia e Suíça. A mãe foi depois, de avião, porque o dinheiro só dava para uma passagem. O irmão acabou na Jordânia e ela, depois de andar 60 quilômetros com as três crianças de Daraa, na Síria, até o campo de refugiados Zaatari, na Jordânia, e lá passar alguns meses, encontrou com ele finalmente em Mahes. Hoje, moram juntos: ele trabalha, ela estuda Letras na universidade, as crianças vão à escola. Ela gosta da vida assim, mas ele quer receber refúgio na Alemanha. “Por ora, meu sonho é terminar meus estudos e poder ser voluntaria para ajudar outros refugiados, como vocês”.

A casa é simples, o café, docinho, as boas-vindas, amorosa. As crianças, com a desconfiança de quem perdeu muito, se escondem e aparecem, olham e devolvem sorrisos. Nos entendemos, nas nossas diferentes línguas e visões de mundo. Ao final, pedi ao Youssuf que dissesse a Randa que eu tenho ascendência síria, que minha família saiu de lá e também se refugiou, mas no Brasil, há um século. Que eu sou um exemplo do refúgio, do futuro, que tudo pode dar certo.

A cada palavra, ela sorria mais, dizia Ahlan Wa Sahlan (bem-vinda) e que eu tinha mesmo cara de árabe. Como se já me conhecesse.

Youssuf também ficou surpreso e feliz com esse meu relato. Agora, em todas as visitas que acompanho, na despedida, ele me olha e nem precisa mais perguntar se quero compartilhar algo. Ele já sabe o que dizer.