O que eu aprendi

O que eu aprendi

Camila Anauate

22 Dezembro 2017 | 19h11

De todos meus dias na Jordânia, aquele foi o dia. Me pegou, me fez chorar, me deu outro sentido. Todas as experiências foram vividas, sentidas e aprendidas, mas a daquele dia veio para transformar.

Aquele dia, domingo, dia de folga. Acordo ansiosa, faz 40 graus, não sei bem o que fazer. Não tem o que fazer. Até receber o convite da missionária Wis, minha companheira de guest house, para almoçar na casa de uma família jordaniana, amiga, que também recebe ajuda da MAIS porque realmente precisa, embora não seja refugiada.

Levamos refrigerante, porque não aceitam que a gente leve mais nada, são seis crianças mais a mulher do Youssef. A casa não tem mais sofá, nem televisão, vendidos para pagar uma cirurgia do filho mais velho. Sobraram colchões no chão, algumas cadeiras de plástico e uma mesa, onde foi servida uma farta refeição de peixe, arroz, salada e batatas fritas.


Youssef se emociona ao contar do problema do filho, da falta de emprego, de dinheiro, do seu desespero. Coloca mais comida no meu prato, me deixa sem graça. As crianças querem atenção. Batemos mais um papo, nos demos as mãos, choramos. Ajudo com a louça e ainda recebo uma quentinha para levar comigo e distribuir para os missionários que não puderam ir. A quentinha que poderia servir o jantar daquela família.

O amor e a generosidade deles me derrubaram. Um pai desesperado, um homem simples, um senso de comunhão que nunca vivi.

Ali caíram todas as minhas fichas. Ali compreendi as lições daquele curto período de voluntariado na Jordânia que chegava ao fim. Lições de humanidade, esperança e superação.

Convivi com muçulmanas na intimidade, vivi abuso e machismo, vi meninas envergonhadas com a roupa que sobe e mostra um tico da barriga no circo, no futebol. Ri e chorei com as diferenças culturais, de religião. Fui a um casamento tipicamente árabe.

Recebi votos de confiança, como o da iraquiana Laila, 75 anos, que se encheu de esperança ao saber que era jornalista e arriscou no seu inglês: “here no good, sahafi, we waiting 3 years, please write” (aqui não é bom, jornalista – em árabe -, esperamos há três anos, por favor escreva).

Me frustei com o resultado da prova de inglês das crianças, meu coração doeu no meu último dia na escola. Estava deixando aquela realidade para trás e talvez nunca mais visse aqueles rostinhos, que por um mês me deram muitos sorrisos.

Vi de perto algo que nenhum meio de comunicação mostra. Agradeci pela vida dos missionários e entendi a importância de todo e qualquer voluntário com todo e qualquer tempo que ele tenha disponível. Ainda me pego, hoje, quatro meses depois, questionando como continuar essa jornada aqui do (des)conforto da minha casa.

O saldo final? Saio mais humana, mais completa, fortalecida.

Contribuí um pouco para amenizar um pouco a dor e o sofrimento de pessoas sem teto, sem rumo. Pessoas que, apesar de tudo, entregam sorrisos. Dividem o que não tem. Demonstram fé. São exemplos de força, coragem e superação. Meu coração, todo esse tempo, sentiu muito mais as coisas boas e positivas do que a dor. Amei e fui amada.