O tempo e as viagens

O tempo e as viagens

Bruna Tiussu

31 Agosto 2017 | 13h57

Trotro, meio de transporte mais comum de Gana. Foto: Bruna Tiussu

Uma coisa aqui, outra ali, e vou me convencendo de que Gana é mesmo o país africano para beginners. Por três fatores essenciais a um viajante: a língua (há sempre alguém capaz de falar inglês básico), a segurança (caminho com tranquilidade mesmo à noite, nas ruas superescuras de meu bairro) e o transporte (até hoje consegui ir para todos os cantos que desejei).

Este último quesito, aliás, surpreendeu-me nos últimos dias. Estamos numa semana de férias na escola — no dia 4 começam as aulas regulares –, então aproveitei a folga para conhecer o Norte do país.

E apesar de menos desenvolvido do que o centro (onde está Kumasi) e o sul (onde está Acra), encontrei cidades bem organizadas e com boas conexões entre elas.


Boas conexões, aqui, quer dizer conseguir chegar ao seu destino com segurança. O quesito conforto, quando há, é luxo.

Ônibus tipo urbano fazem longas viagens no norte do país; e levam mais passageiros do que sua capacidade. Foto: Bruna Tiussu

Ônibus fazem as ligações entre as cidades maiores — no centro e no sul de Gana eles podem ter poltronas acolchoadas e ar-condicionado; no norte e no noroeste até ônibus urbanos fazem trajetos de até 8 horas. Enquanto trotros conectam as pequenas cidades — no caso de vilarejozinhos, táxis compartilhamos fazem o percurso, a preços bem acessíveis.

Os trotros do Norte são veículos bem mais velhos. Às vezes os motoristas têm de fechar sua porta com um lenço e um nó. Outras vezes você se senta e fica desviando das latarias enferrujadas que podem cortar sua perna/braço.

Vi alguns trotros estacionados e cheguei a duvidar que dariam conta de sair do lugar. Ainda mais depois de carregados com sacolas mil e até cabras no bagageiro externo. Mas eles saem. Aliás, só saem depois de lotados.

É assim no país todo: você chega na estação de trotro, encontra o próximo carro com destino a sua cidade, senta e espera ele encher. Pode demorar 5 minutos. Ou mais de uma hora.

Vejo essa espera como mais um exercício de paciência que Gana impõe a nós, estrangeiros. Depois de quase dois meses aqui, acho que tô passando por ele numa boa. Aproveito a espera para reparar no movimento e nas pessoas. E quando já me enchi disso, coloco meus fones de ouvido e uma playlist de Leonard Cohen — ele consegue como ninguém me transportar para um universo aonde o tempo é um mero detalhe.

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