Ora oburoni, ora Madam

Ora oburoni, ora Madam

Bruna Tiussu

27 Julho 2017 | 14h12

Eu, uma oburoni, no mercado da cidade. FOTO: Bruna Tiussu

Aqui em Gana, eu ganhei duas novas denominações. Quando ando pelas ruas de Afrancho, o bairro onde estou morando — usando comparações paulistanas, diria que Afrancho está na grande Kumasi. Fica a 9km do burburinho da cidade, mas já fora do centro expandido —, logo começo a escutar:

— Oburoni! Oburoni! Oburoni!

A palavra, em Twi (umas das mais de 40 línguas faladas no país), quer dizer pessoa branca. Assim, literalmente. Sem nenhum toque pejorativo. O chamado vem principalmente de crianças, que abrem um sorrisão quando recebem um simples aceno. Agora, se dou corda, se digo “Hello”, “How are you?”, “Hey, you, beautiful”, ou coisas do tipo, elas se aproximam empolgadonas.


Querem chegar perto, tocar e, quem sabe, conseguir interagir com essa pessoa de aparência curiosa.

Alguns adultos também vencem a timidez e lançam um “oburoni” na minha direção. E se ganham um cumprimento, exibem um sorriso bonitaço, com dentes tão brancos que é impossível não botar reparo.

A curiosidade dos pequenos e dos grandes se justifica. Eu, oburoni, sou fisicamente muito diferente deles. Além de ser uma espécie rara. Em Afrancho, os únicos brancos que vi nestes 17 dias são os próprios voluntários da escola em que estou.

Foi nesta escola que ganhei minha segunda nova denominação. No meu primeiro dia, enquanto observava as crianças chegarem, comecei a receber um monte de “Good morning, Madam!” Pensei que não estava entendendo o inglês com forte sotaque deles.

 

Eu, versão Madam Bruna, na sala de aula. FOTO: Bruna Tiussu

Então fui para a sala da primeira série, onde estou dando aulas nessas semanas, e me apresentei. A resposta dos alunos foi: “Hello, Madam Bruna!” Meio que paralisei. Ok, é só uma expressão, mas pesou como 20 anos extras nas minhas costas.

Agora acho que estou médio acostumada a ser Madam. Todas as professoras são. E, observando o comportamento dos estudantes, entendi que o uso do termo vai um pouco além da hierarquia aluno-mestre. As crianças aqui têm um admirável respeito aos mais velhos: pais, avós, professores, a cozinheira da escola… Aqueles que, pela lógica mais básica da vida, sabem mais do que eles.