Os excêntricos Maasai — parte II

Os excêntricos Maasai — parte II

Bruna Tiussu

11 Março 2018 | 20h12

Crianças Maasai. Foto: Bruna Tiussu


Dentre todas as tradições Maasai, há uma específica que fica martelando na cabeça, incomodando mesmo: o ritual da circuncisão. Todos os garotos passam por ele. E o mais chocante é que muitas meninas também.

No caso deles, a circuncisão marca a transformação dos meninos em guerreiros. Quando têm entre 17 e 23 anos, eles são submetidos ao ritual sem uso de anestesia. Há que ser forte e resistir aos cinco minutos de operação sem derramar uma lágrima. Assim os pais se enchem de orgulho dos novos guerreiros, que se tornam responsáveis pela segurança e pela manutenção da ordem na comunidade, até a próxima geração ser formada.

Jovem guerreiro, após passar pela circuncisão. Foto: Bruna Tiussu

No caso delas, o ritual marca a passagem da infância para a vida adulta (lê-se, etapa materna), por isso é realizado logo depois da primeira menstruação. O corte do clitóris e muitas vezes também dos grandes lábios vaginais é feito sem anestesia, o que significa submeter as garotas a uma dor insuportável — lembre-se que o nome correto da prática é mutilação genital feminina. Sem contar nos inúmeros riscos à saúde física e mental delas.

Ao ouvir os Maasai mais velhos contando dessa tradição com tamanha naturalidade, a gente passa a dar ainda mais valor à Bright School e todas as outras escolas voltadas às crianças da etnia. Porque é só pela educação que rituais como este podem ser desmistificados e perder seu valor dentro de uma comunidade.

Na Bright, as meninas são ensinadas a enxergar a circuncisão como mutilação, algo transgressor ao corpo feminino. Também são ensinadas que não é preciso ter pressa para ser mãe, que podem (e devem) estudar primeiro, ter uma profissão e então pensar em filhos.

Neema, menina Maasai e aluna da Bright School. Foto: Eduardo Asta

É bacana ver também pais Maasai com uma cabeça mais moderna. Principalmente em janeiro, no início do ano letivo, eles apareciam na Bright trazendo os filhos pelo braço porque entendem a importância de dar uma boa educação a eles. Correm atrás do dinheiro para pagar as taxas ou, na pior das hipóteses, pleiteiam uma vaga gratuita para sua cria.

Os Maasai vestem a chuca, carregam mil bijuterias de miçangas pelo corpo, usam sandálias feitas de pneu, caminham com seu bastão e falam somente sua língua, mas vivem no século 21 como eu e você. Muitos deles querem progredir, aprender sobre o mundo e ter acesso às tecnologias, mas sem abrir mão de todas das raízes de sua identidade. Se a gente evolui e continua sendo brasileiro, por que eles não podem evoluir e continuar sendo Maasai?

Três gerações de Maasai. Foto: Bruna Tiussu