Mais infância, por favor!

Mais infância, por favor!

Camila Anauate

19 Setembro 2017 | 14h00

Senti tamanha emoção ao passar pela porta do centro comunitário. Espiar aquelas crianças sem casa, sem identidade, sem fazer ideia do que acontece em suas vidas, aqueles toquinhos de gente cantando em inglês partiu meu coração e me encheu de esperança.

Naquele momento soube que era exatamente ali onde queria estar. Apresentei-me Camila e me tornei a miss Camilia, assim mesmo, com o final lia, muitas vezes apenas miss. Foram tantos sorrisos inocentes, abraços sinceros e olhares carinhosos que ganhei muito, mas muito mais do que doei.

A dor no coração já era só esperança. Crianças transformam. A alegria infantil de brincar, se relacionar, simplesmente viver faz do centro comunitário o ambiente mais saudável, doce e feliz do universo. Nada importa.


No mundo adulto, o centro comunitário é um projeto social que prepara os pequenos refugiados para, um dia, voltarem à escola. Cerca de 30 crianças de 5 a 12 anos, divididas em turmas por idade, têm aulas de árabe, inglês, matemática, estudos sociais, artes, circo e futebol. Enquanto seus futuros estão indefinidos, encontram no centro um lugar de apoio, educação e alegria. Muitos esperam por uma vaga em escolas jordanianas – e/ou visto para Canadá ou Austrália.

As professoras são também refugiadas ou voluntárias, gente linda, preocupada e engajada. Dão muito de si para mostrar aos pequenos – e seus familiares – que um mundo melhor é possível.

Eu estive nesse mundo por 30 dias. Brinquei sem limites, ensinei, chorei. Ganhei confiança, fiz amigos, recebi carinho. Ouvi tantas vezes um “Miss Camilia, do not go”.  Como se, no fim, quem mais precisasse de chamego e atenção fosse eu.

Meu telefone vibrou semana passada com a notícia de que, com o início do ano letivo neste mês, 70% dos alunos conseguiram vaga em escolas jordanianas. Que vão com mais preparo, mais esperança e mais amor. E que cheguem novos pequenos refugiados ao centro para viver essa transformação.