Ser criança é…

Ser criança é…

Bruna Tiussu

21 Setembro 2017 | 13h51

O riso fácil do Abu, aluno da segunda série. Foto: Bruna Tiussu

“As crianças daí são felizes?”, perguntou-me uma criança brasileira. Respondi, de imediato: “sim, muito!” Minha resposta, claro, foi fundamentada a partir da convivência com os alunos da escola onde sou voluntária, em Afrancho-Kumasi.

A energia, os sorrisos e os olhares deles entregam essa alegria infantil tão linda de se ver. Suas brincadeiras e seus brinquedos (leia mais sobre eles aqui) comprovam que a felicidade está sim nas coisas simples.

Mas ser criança em Afrancho-Kumasi também significa não viver num cenário sempre cor-de-rosa. E ter responsabilidades diferentes das que as crianças brasileiras têm — no meu ponto de vista, né.


Algumas são tão bacanas que gostaria de importá-las para o Brasil. Como a obrigação de limpar a escola: após o almoço, um grupo varre o chão recolhendo os restos de alimentos; ao fim do dia, outro grupo varre as salas e áreas comuns e retira todo o lixo.

Também admiro a forma como as crianças mais velhas cuidam das mais novas. Os grandinhos servem a comida dos pequenos; os levam pela mão até as salas de aula e, quando vizinhos, até suas casas no fim do dia; ajudam ainda a calçar seus sapatos, arrumar o material nas mochilas, etc.

Antes de comer o seu, Solomon serve o mingau de Ema. Foto: Bruna Tiussu

Outras funções atribuídas aos pequenos, por sua vez, me incomodam um pouco. Acho que ainda estou refletindo sobre elas.

Alguns exemplos: se um professor está com sede, ele pede para uma criança sair e comprar um saquinho d’água, ainda que isso faça com que ela chegue atrasada à aula; se o diretor precisa de uma chave que está no primeiro andar, ele designa um aluno x a subir lá e buscá-la; e quando os pedreiros terminam seu trabalho na obra da escola, são as crianças que limpam suas ferramentas.

Alunos lavam os equipamentos dos pedreiros. Foto: Bruna Tiussu

Por fim, há situações pelas quais as crianças daqui são submetidas que sou totalmente contra. Elas se resumem às penalidades aplicadas na escola. Chegar atrasado, não estar com o uniforme completo, faltar ao respeito com um professor ou fazer bagunça são “delitos” que não passam em branco, não.

Dentre as punições corriqueiras estão: ficar ajoelhado no canto da sala; receber um “croque” (aquele soquinho dado com os ossos dos dedos, com a mão fechada) na cabeça; ou um tapa (nas mais variadas partes do corpo).

E a pior delas, aplicada pelo diretor, é um golpe com uma vareta de madeira. Dado sem dó, em lugares como braços, pernas e barriga.

Quando tenho o azar de presenciar a cena meu estômago embrulha. Dá uma vontade louca de tirar a criança dali, principalmente se ela grita ou chora. Já disse ao diretor o que penso disso e sugeri outras formas de lidar com os problemas. Mas quem sou eu para intervir ainda mais?

Felizmente o afago no peito sempre vem. Uns vinte minutos mais tarde, procuro o pequeno punido da vez e o encontro com seu sorriso infantil de volta no rosto. Brincando, pulando ou comendo com os colegas. Ser criança aqui também é ter a destreza de não guardar rancor.