Um básico não tão básico

Um básico não tão básico

Bruna Tiussu

03 Agosto 2017 | 12h37

A única torneira da escola. Foto: Bruna Tiussu

Acabo de ter o primeiro contato com a malária. Gina, uma húngara de 21 anos, também voluntária aqui na escola, sentiu-se mal (febre, diarréia, dor no estômago, calafrios e, segundo ela, falta de forças nas mãos e nos pés), foi ao hospital e lá diagnosticada com malária e tifo.

A malária é transmitida pela picada de mosquitos. Aparentemente poderosos, pois nem as pílulas antimalária que ela vem tomando há meses e nem o repelente europeu que usa foram capazes de imunizá-la. Já o tifo é causado por bactérias do tipo Rickettsia — é algo distinto da febre tifoide, a da Salmonella —, que chegam ao corpo humano por meio de pulgas, fezes de insetos ou água contaminada.

Não sou do tipo neurótica com doenças, mas me assustei ao ver alguém tão mal em apenas 20 dias de África. Por outro lado, os ganenses aqui da escola lidaram com isso como se fosse um mero resfriado. O que faz total sentido. Afinal, eles vivem num ambiente carente de saneamento básico — aqui, algo não tão básico assim. Nunca tiveram água ou esgoto tratado, sempre conviveram com essas doenças.


A dobradinha água + esgoto é o primeiro desafio de quem chega neste país. Ao menos se o destino for bairros de classe média ou baixa. Você caminha pelas ruas, quase todas de terra (só as principais, chamadas de “roads”, são asfaltadas), e vai meio que desviando da água suja/esgoto, prestando atenção aonde pisa. Não há o que fazer, apenas se adaptar.

Ruas de terra e esgoto a céu aberto. Foto: Bruna Tiussu

Os banheiros são em sua maioria de fossas, algo bastante desconfortável e pouco higiênico para nossos padrões. E das torneiras sai água imprópria para o consumo, o que te obriga a comprar água potável para beber e cozinhar.

Aqui na escola há apenas uma torneira. Nós, voluntários, usamos basicamente para lavar as mãos entre uma aula e outra e pegar água para o banho (que é de balde, obviamente). Os alunos, porém, ali captam água para beber. Sim, as crianças bebem desta água. Toda manhã, algumas vão até a torneira para encher o balde que fica em cada classe, com uma caneca compartilhada por todos.

Apesar de não ser potável, essa é a água que as crianças bebem. Foto: Bruna Tiussu

A torneira fica próxima do banheiro, o que justifica a grande quantidade de moscas e mosquitos por ali. Neste cenário, é impossível não pensar sobre o tanto de doenças que estes insetos carregam pra lá e pra cá, pousando (e picando) os 90 alunos, as seis professoras e nós, os sete voluntários.

Nestas três semanas de aulas, porém, não soube de nenhuma criança que estivesse doente. Fiquei refletindo sobre isso e acho que eles só podem ter um organismo mais resistente que o nosso. Ontem ainda fiquei sabendo que o banheiro da escola está próximo de sua capacidade máxima. Pronto, moldei a cena na cabeça. Agora só quero voltar a pensar apenas no organismo forte das crianças.

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