Uma gafe e uma dança

Uma gafe e uma dança

Camila Anauate

29 Agosto 2017 | 12h45

Minha primeira e mais terrível gafe como voluntária aconteceu num sábado de manhã na sede do projeto Gera MAIS, dia de aula de inglês para as mulheres refugiadas. Entre vocabulário de frutas e legumes e exercícios de gramática, tirei inocentemente da bolsa minha câmera. Fotografei a lousa, que estava repleta de palavras em inglês com a tradução em árabe. Depois, virei-me para a classe, levantei os braços e cliquei as alunas.

Meu coração pulou quando uma delas levantou, disparou a falar (alto, muito alto) em árabe e se dirigiu à porta da sala. E a professora pedindo que ela ficasse. Não entendi palavra, mas era óbvio que ela estava brava por causa da foto. Imediatamente, pedi desculpas e fiz um gesto mostrando que apagava a imagem – com as mãos tremendo, ainda consegui ver que três alunas haviam coberto seus rostos.

A tradutora me tranquilizou que estava tudo bem. A moça, na verdade, estava se oferecendo para sair da sala para eu poder tirar outra foto, sem ela, claro. Ainda assim, com a cara vermelha e o coração acelerado, não sabia onde me enfiar. Perdi as contas de quantas vezes me desculpei.

Eu, aqui, obviamente peço permissão antes de qualquer clique. Mas não era minha primeira vez no Gera MAIS, eu já havia fotografado lá antes e, inclusive, conhecia algumas das alunas (iraquianas e cristãs). Só não sabia que, naquele dia, três delas eram muçulmanas – elas estavam de mangas curtas, cabelos soltos e sem hijab (lenço). E as mulheres muçulmanas, em geral, não tiram fotos.


Foi então que percebi o quanto aquele ambiente representa confiança e segurança para elas. E me senti privilegiada por poder estar lá, participando daquela intimidade. Sabe o que significa para uma muçulmana se “despir” fora de casa? Eu, na verdade, nunca havia visto uma sem os trajes tradicionais.

Aquele ambiente, mais do que um centro para aprender a costurar, maquiar ou falar inglês, é  uma segunda casa para as refugiadas. Ali, elas convivem e compartilham suas histórias, suas angústias e suas alegrias. As manhãs são leves e divertidas. A hora do café é sagrada – todas sentam ao redor da mesa e passam longos minutos conversando e dando risada. Sempre tem algum quitute iraquiano ou sírio trazido por elas, para elas.

Momento descontração entre uma aula de costura e outra de maquiagem

A moça que reclamou da foto é uma síria. Depois da gafe, ela me contou que havia fugido do campo de refugiados da ONU porque ela e a filha foram abusadas. Demorou quase um ano para ela voltar a confiar em quem oferecesse ajuda. No Gera MAIS, o que ela mais valoriza são os momentos felizes e de descontração.

Lama, a outra muçulmana que cobriu o rosto na foto, abriu um sorriso quando perguntei de que ela mais gostava no Gera MAIS: “primeiro, estou aprendendo uma profissão. Mas o mais importante é conhecer outras mulheres de bom coração, fazer amizade e viver essa comunhão”.

Na segunda-feira seguinte à gafe, fui novamente ao centro das mulheres. Elas estavam concentradas costurando quando me veio à cabeça a dança árabe dabke – que eu conheço graças à minha descendência. Perguntei meio sem graça, sem saber se pronunciava corretamente, se elas sabiam dançar. E elas surpresas em saber que eu conhecia.

A felicidade invadiu a sala. Num pulo,  ligaram o som no último volume, formaram uma roda e começaram a dançar.

Me puxavam, requebravam, gritavam “lalalalalalalala”.

Eu vi a transformação em cada uma delas.

Camila, “we not crazy, we happy”.

Senti que compensei a gafe. Ganhei o dia.