Uma troca justa

Uma troca justa

Camila Anauate

26 Setembro 2017 | 19h05

Outro dia a Fany, aquela mesma que me pediu ajuda para encapar o sofá, me jogou outra missão no colo. Ela também é educadora e dá as aulas de artes e circo aos pequenos refugiados. Lá no centro comunitário, enquanto ajudava na organização do lanche, ela me avisa que teve um imprevisto, precisa sair e me pede para assumir o horário da classe de circo daquele dia. Das duas classes, na verdade.

“Cami, dá uma aula de yoga ou pilates”, me deixou a dica, sabendo das minhas práticas. É, pode ser, boa ideia, pensei. Eu tinha 20 minutos para decidir o que e como fazer e, claro, nada veio à cabeça. Quer dizer, veio: será que vão entender meus comandos em inglês? Quanto tempo consigo entretê-los? Seria mais fácil convencer a turma dos menores ou dos maiores? Meu Deus, são 40 minutos por aula, média de 10 crianças cada. Pânico.

Com cara de quem faz yoga desde que nasceu e tem prática com criança (só que não), recebi a primeira turma. Liguei minha lista de música para meditar, propus que todos se deitassem. Antes mesmo de me ouvirem, a notícia de que a aula do dia seria yoga já havia se espalhado. “Miss Camilia, yoga today?” “Look, look” de um lado e alguns já estão sentados de pernas cruzadas e olhos fechados. “Look, look” e outros estão entoando o mantra OM. Cada um queria me mostrar o que já sabia fazer.


“Vamos relaxar primeiro? ”, propus, de novo. Queria ganhar uns 5 minutos nisso. Queria. Cochichos, risadinhas, movimentos. Não durou 1 minuto. Tá bom, entendi, criança não pode ficar parada. Começamos a sessão de exercícios. Foi bem. “Miss Camilia, look”, e tudo de novo.

Então percebi que se eles fossem protagonistas ganharia mais alguns minutos. Formei uma roda, cada um deveria ir no meio e fazer uma posição, todos imitavam. Sucesso.

Olho no relógio e ainda faltam 15 minutos. Nessa altura, alguns já começavam a querer pegar os brinquedos da sala, brincar de corre cotia, montar quebra-cabeça. Brigar. Consegui ainda fazer alguns alongamentos finais. “Miss Camil…”. “Ok, ok”, desisto.

Meio decepcionada, meio satisfeita, totalmente cansada, tive outra ideia. “Quem quer ser meu professor de árabe? ”. Todos correram em minha direção, sentaram e passaram os últimos 5 minutos me ensinando a contar até dez em árabe – e tirando o maior sarro da minha incapacidade de pronunciar corretamente algumas letras.

Troca de turma. Já dá para imaginar, né?

Tal foi minha alegria quando a Fany me manda, há algumas semanas, um vídeo de um dos pequenos meditando em posição de yoga na hora do lanche, com a seguinte mensagem: “fruto seu”. E enquanto finalizo essas letras, outra atualização: “as professoras acham que os alunos precisam de mais aula de yoga (risos)”.

E eu, vergonha, já esqueci como fala em árabe os números três, oito, nove e dez.