Wake up!

Wake up!

Bruna Tiussu

23 Novembro 2017 | 03h32

Provas de inglês do primário 5. Foto: Bruna Tiussu


Com calculadora e caneta vermelha em mãos, os professores marcavam as provas dos alunos dos primários. Ao lado das notas, dadas segundo a porcentagem de acertos, eles deixavam uma exclamação. Naquele dia contabilizei dois “Very Goods”, quatro “Goods” e uma infinidade de “Wake Ups”.

Aqui no Amasiko Greenschool é raro quando metade dos estudantes de uma sala alcança mais de 60% numa prova. Seja ela de inglês, matemática, ciências ou estudos sociais.

Talvez porque os exames sejam muito difíceis? Que nada. As notas são mesmo reflexo da baixa qualidade do sistema educacional do país. Pois o cenário não é uma exclusividade do Amasiko. Ele se repente Uganda afora, nas outras escolas privadas e também nas públicas.

Na hora da prova, o tambor vira mesa. Foto: Bruna Tiussu

Em setembro, o World Bank divulgou uma pesquisa que diz que 80% das crianças do primário 2 de Uganda não conseguem fazer uma conta de subtração de dois dígitos. A mesma conta é respondida corretamente por apenas 50% dos estudantes do primário 5. Enfatizando: 50%.

O estudo ainda relata que quando pediram aos alunos do primário 3 que lessem a sentença “The name of the dog is Puppy”, 3/4 não entendeu seu significado. E o inglês é a língua oficial do país.

Diante de tais números, especialistas em educação explicam que Uganda não sabe diferenciar “schooling” de “learning”. Uma questão que recai diretamente na didática de ensino aqui adotada e nos professores.

Como já falei em outro post, 59% dos professores ugandenses estão ausentes das salas de aula, ainda que estejam nas escolas. As crianças têm, portanto, menos horas letivas do que deveriam. Menos aulas = menor aprendizado.

E quando estão lecionando, seguem a cartilha tradicional de ensino, que se resume a matéria dada na lousa, exercícios e correção. Lição de casa é algo ocasional.

É fácil olhar os professores aqui do Amasiko como adultos frutos deste sistema educacional capenga. Ao mesmo tempo penso que eles, educadores, têm de ser os agentes da mudança. Se não eles, quem mais? Dá vontade de pegar o caderno de cada um e escrever em letras garrafais: “Wake Up!”