Xeque-mate

Xeque-mate

Bruna Tiussu

29 Janeiro 2018 | 16h29

Uma rotina de encher baldes e galões d’água — e carregá-los. Foto: Eduardo Asta


Depois do treino, a prova. Em Gana, tive de me adaptar a uma rotina com água limitada. Em Uganda, acostumei a me virar com pouca energia. Agora é a hora de mostrar (pra mim mesma) que aprendi as lições, pois água e energia são bens bastante escassos neste canto da Tanzânia.

Aqui na região de Loliondo, no extremo norte do país, iluminação pública não há e as casas, na melhor das hipóteses, viram-se com baterias abastecidas por painéis solares.

A Bright School tem duas baterias médias e um inversor pequeno, o que significa que em dias nublados a energia é pouca mesmo. O jeito é economizar o uso do computador e do celular. E curtir a “descoberta” da escuridão: brincar e cantar com as kids no breu, admirar o céu completamente coberto de estrelas e usar a lua como fonte de luz para voltar pra casa.

Cada dia mais amiga da escuridão. Foto: Eduardo Asta

Lidar com a escassez de água é mais complicado. Exige uma boa organização, planejamento mesmo. A Bright recebe água encanada três vezes por semana. Logo, são nestes dias que se lava roupa. E também que se enche todos os galões da casa, que devem dar conta das necessidades básicas pelo menos até o próximo dia de água na torneira.

Estamos falando de um lar onde vivem sete adultos e 100 crianças. É água para limpar banheiros e quartos, alimentar, matar a sede, dar banho e lavar as mãos de 107 pessoas. Ainda que haja um planejamento e todos economizem, vira e mexe falta água para algumas dessas necessidades.

Vivencio toda essa dinâmica diária e penso em duas coisas: 1. Que falte tudo, mas por favor, que não falte água 2. Se as pessoas daqui nascem, crescem e morrem economizando, eu tenho que no mínimo fazer o mesmo durante minha estada.

Isso significa, entre outras ações, usar apenas duas bacias d’água para lavar roupa (uma para ensaboar e lavar de fato e outra para enxaguar); reutilizar essa água para limpar o banheiro; jogar água na privada só uma vez ao dia (meio urgh no começo, mas passa); e restringir meu banho, que é de canequinha, a meio balde (ou cinco litros).

Para mim, o esquema do banho é de longe o mais desafiador. Por conta dos cabelos e porque estamos numa escola na área rural em época chuvosa — você dá dois passos e está com barro até na testa. Para ficar dentro do limite do meu meio balde, acabei de organizando assim: lavo os cabelos só duas vezes por semana e desencanei de tentar desencardir os pés. É a lei da adaptação.