40 anos do Golpe no Chile -Desaparecidos: famílias esperam por justiça e dignidade

40 anos do Golpe no Chile -Desaparecidos: famílias esperam por justiça e dignidade

"A verdade que quanto mais passa o tempo e você fica sabendo destes tipos de tortura e de horrores e barbáries, vc se da conta que a espera deve ser permanente, porque precisamos de mais justiça, precisamos dignidade."

Paulina Chamorro

11 Setembro 2013 | 09h13

Para este dia marcado pelos 40 anos do Golpe Militar no Chile, trouxe um depoimento emocionante da psicóloga chilena Claudia Godoy Gonzalez, filha do médico Carlos Godoy, desaparecido político em 1976.

Ele conta como  fez para manter a presença do pai forte na vida e o que esperar quando já se passaram quase quatro décadas de procura.

Claudia Godoy participa ativamente de associações de familiares de desaparecidos, trocando  experiências e sentimentos  com centenas de famílias na mesma situação no Chile, passados quarenta anos.


Quando  seu pai desapareceu e e quem foi teu pai?

Pra mim é um prazer falar do meu pai. Eu conheço meu pai até os 8 anos. Ele se chama Carlos Godoy Lagarrigue  e tinha 39 anos quando  desapareceu, quando foi  detido e depois desaparecido. Ele era médico ginecologista obstetra. Nós éramos uma família muito feliz, muito convencida  do  projeto  da Unidad Popular, meu pai era um médico comunista, um médico com o sentido  da medicina pública muito forte. De fato  nos vivemos 3 anos numa zona rural, Melipilla, onde o  meu pai praticou  a medicina pública que era sua grande vocação. Assim como amava a medicina e a saúde publica, amava seu partido, o Partido  Comunista. Quando veio  o  golpe ele  ficou desempregado e teve que ter outras fontes de recursos, tivemos  muitas dificuldades. No mesmo ano de 73, no ano seguinte 74…

Meu pai desaparece em 4 de agosto  de 1976, quando no  Chile a ditadura aplicava políticas especificas de extermínio. No ano de 76 o projeto era fazer desaparecer completamente as células do partido comunista. Nesse contexto, já tendo desaparecido muitos companheiros do meu pai, que ele é detido  por mãos misteriosas.

Eu tinha naquele momento oito anos, e o meu pai , como era médico, tinha plantões à noite, numa zona rural, numa zona sul de Santiago.

Saiu no seu carro no dia 3 de agosto, que também desapareceu, e levava na sua mala seu pijama, sua escova de dentes….eu tenho tentado proteger estas imagens na minha memória.

Essa noite ele fica no hospital e ele deveria sair tipo 16h. Ele trabalhava também num consultório associado a uma paróquia, num bairro popular. Ele nunca chegou  na paróquia e é detido em alguma parte do  trajeto. Anos depois ficamos sabendo que os responsáveis eram da Direccion Nacional de Inteligência, a DINA.

Nós somos 3 irmãos. O mais velho, Pedro, tinha 11 anos, eu 8 anos, e o  menor de quase 2 anos. Minha mãe nos disse a mim e a Pedro que provavelmente o nosso pai tinha sido detido e que não  comentássemos e nem falássemos com ninguém na escola sobre isso.

Bom esta informação quase que não foi necessária, porque a gente já tinha percebido um carro que estava a dias vigiando a nossa casa. E dias depois do desaparecimento do  meu  pai, muitas ligações  misteriosas  com uma voz de mulher  nos perguntava pelo  nosso pai.

Foi-se construindo ao longo do tempo na cabeça destas crianças uma ideia muito  estranha e compreensível de que seu pai não voltaria. Era  estranho  porque havia a esperança que de que ele voltasse e ao mesmo  tempo se tinha a convicção de que não.

Mas nós esperávamos.

De que maneira você mantém o seu pai na sua vida?

Pra mim se constitui uma imagem infalível no meu cotidiano. Eu estou com ele todos os dias. Ele me acompanha nos momentos importantes, duros e alegres da minha vida. Ele está comigo e falo muito dele. Tenho procurado conhecer e conversar com pessoas que o conheceram mais do que eu, porque o que tem sido difícil pra mim é que eu o conheci só por 8 anos. Muito  pouco.

Acho que foram 10  anos que o  esperamos  realmente, como  que ele fosse voltar com vida. Mas logo  depois os acontecimentos do  pais foram mostrando que não. Existia ua fantasia  muito  forte de que ele estava num centro de detenção, que tinha perdido a memória e isso é em comum em todos os filhos. Nós o temos como um amigo permanente.

É certo que é a gente se emociona ao falar deles, mas também dá alegria, porque essas pessoas eram especiais, muito comprometidas com o trabalho social, comunitário de seu país, com um carinho pelo país e pelo seu trabalho e pelo  seu povo tão  grande, que pra mim é difícil entender.

Eu me coloquei alguns objetivos  para estar perto do  meu pai. E assim entrei para estudar na mesma escola em que ele estudou, aos 13 anos, e senti um tremendo alivio porque sentia que estava pisando o mesmo chão que ele pisou. Percorri os lugares onde trabalhou, conversei com seus colegas de universidade e de vida e aos poucos fui construindo como um quebra cabeças a imagem de um pai com o  qual também discuti, briguei, me zanguei.E quando me transformei  em mãe entendi coisas que tinha custado a entender.

Trabalhei alguns anos em Villa Grimaldi, que era o  centro de tortura onde passaram boa parte dos detidos em Santiago. Hoje se transformou no Parque da Paz Villa Grimaldi.Mas entre ´73 e ´79 se chamou  quartel Terra Nova, por onde passaram mais de 4 mil prisioneiros políticos  e pelo  menos 236 detidos desaparecidos que estiveram neste lugar. Meu pai esteve ali. Há testemunhas de alguns prisioneiros que fazem referencia  ao “Dr. Godoy” . Me aproximei a lugares onde ele poderia ter sido detido, as celas, que eram umas  caixas de 1metro por 1 metro, onde ficavam  até 4 presos juntos .

O ano passado conheci o quartel de tortura Simón Bolivar, onde ficando  sabendo  por meio de testemunhas , que passou na célula do  Partido  Comunista do Chile, do qual pertencia meu pai. Lá eles receberam torturas particularmente ferozes.

Objetivamente não temos  referencia de onde estão seus restos.De acordo  com a informação de que as Forças Armadas nos entregaram em algum momento  dos anos  90 meu pai teria jogado  ao mar em alguma zona de San Antonio, no  litoral central do Chile.

Não há documento escrito sobre isso, temos encontrado alguns corpos, muitos poucos.

Tenho compartilhado a dor de amigas muito próximas do que significa encontrar pedaços de ossos do seu pai. Ainda não foi minha vez, e não sei como vou reagir quando seja. Por que na verdade tenho vivido  a vida inteira em espera . Muitos anos em espera real e hoje a espera da verdade e da justiça. O processo do meu pai está muito próximo de terminar. Não há culpados, os culpados já não estão, as pessoas que sabem não querem falar .

A verdade que quanto mais passa o  tempo e você fica sabendo  destes tipos de tortura e de horrores e barbáries, vc se da conta que a espera deve ser permanente , porque mais precisamos de justiça, mais precisamos  dignidade.

Ouça o  depoimento  de Claudia Godoy , aqui

 

E este é o  texto de autoria dela  que está no  Museo  de la Memoria  y Derechos Humanos, em Santiago  do  Chile

EN  MEMORIA  A  TU  AUSENCIA

Estoy  frente  a una hoja  en  blanco  y debo  escribir  imágenes….esto  no  es  fácil…si  bien  es cierto  que  te  recuerdo  siempre,  que  te  has  hecho  parte  de  mi  cotidiano,  que  hablo  contigo  sin  darme  cuenta  cuando  murmullo  ideas haciendo  cualquier  cosa…….es  otra  tarea  muy  distinta  Recordarte  con  sistematización…re – cordare…..volver  atraer  al  corazón,  a  mi  corazón,  volver  a hacer  que  pases  por  mi  corazón….por  mi  presente.

Lo  difícil  y  duro  es  que  no  solo pasan  por  mi  corazónaquellas  imágenes  que  tanto atesoro  de  ti,  papá…..tus  manos,  tu  cuerpo  saltando  y riendo….tú  con  tu  manzana  a medio  terminar  de  un  mordisco….tu  carcajada,  tu  revolverlo  todo  con  esa  energía  divertida  que  a los  8  años  me  era  tan  impactante  y atractiva!!

Recuerdo  y  revivo  el  horror  por  el  que  pasaste……..no  me  lo  pudiste  contar,  esperé  que  lo  hicieras  tantos  años…..sabía  que  siendo  la  niña  pequeña  que  dejaste  de   ver,  tu  no  lo  harías…tu  cuidarías   que esa  niña  no  sufriera. Te  conocí  tan  poco,  pero  estoy  cierta  de  que  el sufrimiento  en los  niños  es  algo  que  tu  no tolerarías,  la  injusticia  en  los  más  desvalidos,  en  los  enfermos,  en  los  carentes,  fueron  los  motivos  de  tu  lucha  y  paradójicamente  la  razón  o  mas  bien  el  móvil   irracional,  que  dejarían  en  tu  piel  el  sello  de  un  sufrimiento  permanente.

Hace  años  que  esa  niña  quedo  atrás…empero  aun  no  puedo    saber  qué   te  pasó,  qué  te hicieron,  dónde  estás,  dónde  está  tu  cuerpo  repartido??

El  tiempo  nos  ha  ido  entregando  testimonios, algunos  en  la  valiente  voz  de  los  sobrevivientes,  otros,  en  los  hallazgos  de  huesos,  trozos  de  ropas,  pedazos  de  riel  lanzados  al  mar,  restos  de  químicostóxicos  escondidos  como  evidencia  de  la  vergüenza.  Entonces te  recuerdo,  te  revivo  en  mi y  se  me  retuerce  el  alma,  el  intestino  y  la  médula…..

Me  debo  sobreponer  a este desgarro,  que  no  es  solo  mío…es  exponencial,  son  muchos  que  lo  comparten.  Hoy  día  son  muchos  más  los  que  se  atreven a reconocerlo  como  cierto,  como hecho  irrefutable…antaño  debimos  además  soportar  la  negación  de tantos,  la  ironía,  la burla,  la  humillación de una existencia  que  querían  no tan  solo  destruir,  si no  deshonrar,  mancillar,   aniquilar   en  el olvido  social.

Para  que  tu  recuerdo  se mantenga  relativo  a la  dinámica  de mi  vida  y  no  tan  solo  en  aquella  huella  mnémica  de  mi  pasado de niña…te he  hecho  transitar  conmigo  mis  momentos  importantes;  has asistido  a mi  graduación,  has  estado en  el  quirófano  en  mis  dos  partos,  me  has  acompañado  al  subirme  a un avión…te  has  reído  conmigo,  me  has protegido  en  momentos  de  mucho temor  y  siento que  incluso  has  cobijado  a mis  hijos  y  disfrutado  con  sus  logros.

Hago  el ejercicio  de  pensarte  aquí  y  ahora  y  ya  no   sé   como  serias….cómo  habrías  encajado en  esta  sociedad  chilena  que  no  ves hace  tanto    tiempo….. te  imagino,  tal  vez  canoso   y  abuelo,  pero igualmente  divertido  y  lleno  de  vitalidad….tal  vez  habrías  jugado  a  la  pichanga  playera  con  tus  nietos   – sabes  que  tienes  5  nietos  varones  y  una  preciosa  niña-,   imagino que  seria  tu  regalona….imagino  que  irías  con ellos  a  caminar  por  la  playa,  a escalar  rocas, que  los  habrías  llevado a conocer  la  cordillera  en  la  que  esquiaste  de  adolescente  con  tu  hermano,  que  comerías  pan  tostado  con mantequilla  a la  hora  de  la  once,  que  irías  feliz  a la  feria  los  sábados  por  la  mañana  para  que  la  mamá  te  cocinara  la  sierra  a  la  cacerola  con  cebolla  y  ajo….imagino  que  tus  manos  cirujanas  habrían   trabajado  incansablemente   por  la  Salud  Pública  de  tu  querido  Chile…imagino  que  serias  el  hombre  sensible ,  alegre  y  comprometido  que  fuiste  desde  joven….imagino,  imagino……imagino.….y  cuánto  deseo  que  esta  pesadilla,  que  esta  realidad  con  bombardeo  y  política  de  exterminio  institucional,  no  nos  hubiera  robado  la  dignidad,  la  inocencia,  la  vida  y  los sueños.

NI  PERDON,  NI OLVIDO