Aventura extrema, um modelo de negócio pouco explorado em nossos Parques Nacionais

Aventura extrema, um modelo de negócio pouco explorado em nossos Parques Nacionais

Serviços terceirizados e áreas particulares convivem em sintonia com a natureza preservada em outros países, mas ainda não por aqui. Conheça o exemplo bem sucedido da Patagônia Chilena.

Paulina Chamorro

03 Agosto 2014 | 22h26

Quando Steve Jobs casou-se em 1991, o matrimônio com Laurene Powell Jobs ocorreu no imponente Ahwahnee Hotel, uma imensa e clássica construção no coração do Yosemite National Park, na Califórnia. Erguido em 1927, o Ahwahnee Hotel esperou sessenta anos para que os Estados Unidos transformassem esse imenso vale povoado por sequóias, montanhas, plantas e animais em Parque Nacional. Um modelo de ocupação que baseou todo o desenvolvimento dos outros parques nacionais estadunidenses mostrando sua eficiência sustentável. O Parque Yosemite tem 95% da sua extensão intocável e uma diversa opção de esportes de aventuras, além de hotéis de luxo como o que o Steve Jobs e sua família escolheram para uma data tão especial.


No Brasil, nos 69 Parques Nacionais – alguns com a extensão de países europeus –, o turismo de aventura, de observação e exploração ainda é muito tímido. Para o apaixonado pela natureza poder pernoitar num lugar protegido, Patrimônio Mundial da Humanidade, aqui no Brasil, como acontece em outros países, ainda é um sonho.

O País é carente nessa área, apesar de sua exuberância, e com pouca oferta de visitação a Parques Nacionais com atividades de ecoturismo e até de estadia nas áreas protegidas para turistas. “Ainda não há demanda suficiente no País para esse tipo de turismo e o reflexo é o baixo interesse dos empresários em investir”, aponta Sérgio Franco, empresário e criador da Adventure Sport Fair, maior feira de esportes de aventura da América do Sul, o dilema dessa atividade no Brasil. Sérgio acredita tanto no sucesso do turismo sustentável que possui um Hotel para a prática de aventura, em Socorro, há 140 km da capital São Paulo.

Aventura patagônica
Lugares incríveis para a prática de trekking e outras atividades de aventura com estrutura, conforto e segurança, não são novidade na América do Sul. Em Ushuaia e Calafate, no sul da Argentina, o turismo de aventura internacional desembarcou com força total.

PARQUE NACIONAL TORRES DEL PAINE

LAS TORRES DÃO NOME AO PARQUE NACIONAL CHILENO

No lado chileno da Patagônia está um dos destinos preferidos pelos apaixonados por natureza e aventura. O Parque Nacional Torres del Paine. Lá, como na maioria dos Parques Nacionais chilenos, existem hotéis que são instalados por meio de concessões do governo. Também é feita uma série de contratos e compromissos com a CONAF, uma espécie de ICMBio (Instituto Chico Mendes para a Biodiversidade) do Chile. A lógica é simples, eficiente, (e perfeitamente assimilável no Brasil): quanto mais gente conhecendo e percorrendo o Parque, menos agressões o ambiente vai sofrer.

Hotel Las Torres

HOTEL LAS TORRES

Cravado no centro da Patagônia chilena, o Parque Nacional Torres Del Paine oferece estrutura completa para qualquer tipo de aventureiro. E no coração do parque, no início da trilha para as Torres, está o Hotel Las Torres, de propriedade particular, operando como uma espécie de Ilha dentro da área do Patrimônio Mundial da Humanidade, como é reconhecido o local.

 

Hotel Las Torres

HOTEL LAS TORRES: CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL

Pertencente à família Kusanovic, de origem croata, que desbravou o sul do Continente a partir da cidade de Punta Arenas, (principal acesso ao Torres Del Paine), o hotel tem o privilégio de oferecer 84 quartos, restaurantes, três refúgio com beliches, cavalaria e uma estrutura sustentável na base do vale que leva até as cobiçadas Torres.

Lago Sarmiento

TREKKING AOS LAGOS SARMIENTO

Além disso, opera todos os passeios e aventuras ao longo do Parque e mantém três refúgios grandes e bem equipados nas trilhas de trekking avançadas na região. Os praticantes de camping também podem desfrutar da abundante natureza do Parque Nacional em locais bem estruturados para essa prática dentro das terras do Las Torres.

Trekking Sarmiento

TREKKING SARMIENTO: NATUREZA EXUBERANTE

A partir do Hotel fomos conhecer três dos melhores destinos de aventura de Torres del Paine: o trekking aos lagos Sarmiento, o Glaciar Grey e a escalada até as bases das Torres. A principal atração da região é o chamado “W”, caminhada de nove dias enfrentando os ventos constantes e o tempo instável para encontrar paisagens exuberantes nos bosques, montanhas imponentes e desafiadoras, lagos de cores indescritíveis e as geleiras, um espetáculo desconhecido no Brasil.

Trekking Sarmiento

GUANACOS VIVEM LIVRES POR TODA ÁREA DO PARQUE

Apesar de todo o conforto oferecido pelo hotel com vans para o traslado aos lagos e outros pontos turísticos do Parque Nacional Torres del Paine, a maioria dos turistas que encontramos eram aventureiros que buscavam o contato intenso com a natureza. Muitos europeus e japoneses nessa época do ano, início da temporada patagônica, fizeram o “W” ocupando todas as vagas dos refúgios particulares oferecidos pelo Las Torres.

CAVALGADA ATÉ A BASE EL CHILENO

A primeira perna do “W” é a escalada até a base das Torres, a 880 metros de altitude. É a vista mais impressionante do Parque Nacional que pode ser alcançada numa caminhada ida e volta de até 9 horas. Fizemos o programa do hotel, que oferece uma cavalgada até o refúgio El Chileno, no centro do vale que conduz às Torres. A partir daí uma caminhada de uma hora pelos bosques e montes de pedras soltas. O clima ali é instável a ponto de mudar em 10 minutos de sol para nevasca; o vento constante pode afetar sua temperatura no ataque final a base; o corpo é desafiado. E este trekking é considerado de médio impacto. Mas de grande recompensa. Que visual incrível, um dos pontos mais impressionantes da América do Sul, sem dúvida.
Na volta, depois de muitas fotos, cavalgar pelo vale ao lado dos Baquedanos, ou condutores de cavalos, tradicionais da cultura Magalhânica, é outra experiência que vale o ingresso a Torres del Paine.

 

TEMPO INSTÁVEL, MAS A RECOMPENSA DE CHEGAR NA BASE DAS TORRES

Para os aventureiros que fazem o “W” completo a pé, o fim da aventura é no lago Grey, na base do glaciar de mesmo nome, uma impressionante plataforma de gelo que derrete cada dia mais rápido. Fomos de van até o lago de onde parte o barco que resgata a turma do trekking avançado. Já na praia cinza do lago é possível avistar grandes blocos de gelo soltos da plataforma, que se desfaz ao ritmo de 100 metros ao ano. Há 15 anos apenas três metros do manto branco se desfazia no lago.

LAGO GREY E O BARCO QUE LEVA ATÉ A GELEIRA

O grand finale dessa aventura, já com todos a bordo, é uma volta com o barco a poucos metros do glaciar, por toda sua extensão, com direito a um pisco souer com gelo milenar adquirido ali mesmo, nas águas cinzentas – mas limpinhas – do Grey.

IMPRESSIONANTE TAPETE DE GELO NO LAGO GREY

A terceira aventura em Torres del Paine foi um trekking leve, de quase três horas de duração pelas trilhas em torno dos lagos Sarmiento Chico e Sarmiento Largo. Imprescindível nesse percurso é a câmera fotográfica. Além da beleza única dos lagos, há uma diversidade impressionante de flores e plantas, que possuem verdadeiros ecossistemas no entorno para sobreviver a severidade do clima local. Estar em contato com essa natureza é o motivo de cada vez mais europeus visitarem o Parque Nacional. Ah, e de pano de fundo desse cenário está a montanha Los Cuernos, formação geológica que exibe um maciço em duas cores, forjado por erupções, o calor e o frio, há milhares de anos.

FORMAÇÃO ROCHOSA LOS CUERNOS

Turismo extremo sustentável
Imagine o desafio de um hotel localizado praticamente no fim do mundo para abastecer todo o conforto necessário a hóspedes exigentes, famintos e cansados. Ainda mais difícil é lidar com a sustentabilidade dentro de um Parque Nacional. Descarte de lixo, nem pensar. Qualquer tipo de contaminação na área do parque significaria o fim desse empreendimento.

O diretor-presidente do Hotel Las Torres, Josian Yaksic, leva muito a sério essas questões. Esse é um dos segredos do sucesso do Las Torres que, apesar de ser propriedade particular dentro de uma área protegida, muitas das ações são exigidas, fiscalizadas e em alguns casos compartilhadas em responsabilidade com a Corporación Nacional Forestal, a CONAF.

Ele conta que é feito um incansável trabalho nas instalações para reduzir ao máximo o impacto no ambiente, como tratamento de esgoto de forma biodegradável, captação de energia solar dentre muitas outras ações. Para Yaksic “a natureza extrema, remota, quase inacessível, é a essência do que vendemos aqui”.

Além de manter praticamente intacta a natureza, a busca pela sustentabilidade das atividades do hotel e dos refúgios mantidos pelo Las Torres é um importante argumento para os turistas. Afinal, estão ali para ter contato com a natureza extrema, portanto tem tanto interesse em preservar, cuidar, manter, quanto os próprios administradores do local.

O gigante verde adormecido
Gostaria de poder dizer o mesmo dos parques nacionais brasileiros, cujo modelo está baseado na proteção à degradação e ao estudo, com poucas exceções de exploração sustentável permitida. Mas a realidade do Hotel Las Torres e do Parque Nacional Torres del Paine, ainda está muito distante das áreas protegidas em nosso País.

Um modelo que traz esperança está se desenvolvendo no Parque Nacional do Iguaçu. As Cataratas, escolhida como uma das novas 7 Maravilhas do Mundo, fazem parte da fronteira do Brasil com a Argentina, onde são ofertados hospedagem, serviços de ecoturismo e diversão para todos os gostos, dos dois lados.

Na Argentina hotéis e cassinos. E no Brasil opções de passeios pela Mata Atlântica e outros diversos pacotes de aventura operados dentro do Parque Nacional. Há até o charmoso Hotel das Cataratas, localizado a alguns metros das passarelas que levam ao espetáculo da queda d’água no fundo do cânion do Iguaçu.

Turismo internacional de primeiro mundo que deveria ser aplicado em outras regiões do País. O Parque Yosemite, local do casamento de Steve Jobs, deveria servir de inspiração. Recebeu ano passado três milhões de visitantes. Pessoas que pagam ingresso e ainda vão consumir todos os serviços para estar – e preservar – a natureza. Afinal, quem não sonha em ter um casamento como o de Jobs?

A temporada na Patagonia chilena abre em setembro. Este post não é por acaso. Espero que sirva de inspiração para conhecer um dos lugares mais lindos e selvagens do planeta. Falta um mês!

O Parque Nacional Torres del Paine foi escolhido como a Oitava Maravilha do Mundo em 2013  após uma votação promovida pelo TripAdvisor Media Group, com mais de cinco milhões de votos.

Para saber mais: www.lastorres.com  www.fantasticosur.com www.hoteldascataratas.com.br www.yosemitepark.com www.wikiparques.com

LAGOS DE UMA COR EXUBERANTE SÃO ATRAÇÃO À PARTE

TRILHAS BEM SINALIZADAS E MONITORES EXPERIENTES DÃO O TOM NA AVENTURA