Céline Cousteau e o projeto ‘Tribos no Limite’ sobre a saúde dos índios do Vale do Javari

Céline Cousteau e o projeto ‘Tribos no Limite’ sobre a saúde dos índios do Vale do Javari

“A extinção dos povos e a destruição do Vale do Javari não nos levará a lugar nenhum” diz Céline Cousteau.

Paulina Chamorro

12 Agosto 2014 | 22h06

A documentarista Céline Cousteau com criança matis na aldeia Tawaya (foto:Michael Clark)

Em maio deste ano, pouco antes do início da Copa do Mundo, a documentarista Céline Cousteau, neta do lendário Jacques Cousteau, seguiu os passos que transformaram o sobrenome de sua família em lenda: produzir imagens para contar histórias e dar visibilidade a problemas ambientais ou sociais.

Céline deu início às gravações do projeto-documentário ‘Tribes on the Edge’, ou ‘Tribos no Limit’e, para atender a um chamado, quase um apelo feito pelos indígenas do Vale do Javari, para que ela contasse ao mundo os graves problemas que assolam esse território brasileiro quase intocado há décadas. A precária saúde indígena-levando a índices alarmantes de hepatite e malária em cada aldeia e que até agora não sensibilizou o governo federal para medidas extremas de vacinação para este importante lugar- em contraste com a luta destes povos do Javari para manter sua luta viva e com soluções claras e cada vez mais urgentes.

Tive a honra de participar desta primeira expedição como produtora de campo. Então, o que relato aqui é fruto das nossas conversas pela Amazônia e da missão que assumi tanto um pouco como minha, pois não dá para ficar imune ao “drama humano”, como diz Céline, que está acontecendo nesta região no extremo oeste da Amazônia.


É o segundo maior território indígena do Brasil, com aproximadamente 5 mil indígenas e mais 23 povos isolados. São 80 mil hectares de biodiversidade ainda selvagem e desconhecido. A UICN reconheceu em 2013 o Vale do Javari como um dos 10 lugares insubstituíveis do Planeta.

Por estes motivos e, principalmente, como citei, porque não dá pra ficar ausente do debate nem do drama humano no Vale do Javari, relato a seguir o que Céline Cousteau disse durante esses dias inesquecíveis na selva amazônica. Essa conversa vocês também podem ouvir no Planeta Estadão, neste sábado, às 18 horas, pela radio.estadao.com.br.

Tivemos pouco tempo para contemporizar sobre o que ocorria ali. A vida na Amazônia é dura, tudo muito difícil. Por isso, o único tempo que tivemos para trocar nossas impressões ocorreu na pequena cidade Atalaia do Norte, porta de entrada para o Vale do Javari. Este município possui uma pequena porém esforçada equipe da UNAI, para atender este enorme território (maior que muitos países) e que possui recursos escassos para monitoramento e combate a invasão, contando com apenas 6 funcionários.

Aliás, o tema da invasão dos missionários estrangeiros em terras brasileiras tem tirado o sono de líderes indígenas, às vezes mais do que as próprias doenças. Mas esse assunto vou deixar para abordar em outro post.

A seguir, o que disse Céline Cousteau:

Qual foi o roteiro desta primeira expedição?

Percorremos um rio a cada cinco dias. Primeiro o Rio Itauí, navegando por 11 horas até a primeira aldeia, da etnia dos Marubos. Seguimos depois até a aldeia Rio Novo, também dos Marubos, onde estive em 2007 com meu pai, Jean-Michel Cousteau. Retornamos pelo Itauí até próximo a sede da Funai e descemos pelo Rio Branco, até duas aldeias da etnia Matis.

Fui convidada para voltar ao Javari porque existem muitos problemas de saúde, especialmente de hepatite e malária, e eles estão desesperados por ajuda. Eles não querem morrer e isso qualquer ser humano tem o direito de desejar.

Quero ouvir todas as etnias que compõem o Território Indígena. Que todos tenham espaço e voz.

Fui com uma equipe internacional. Dois câmeras, um desenhista, um fotógrafo, uma antropóloga brasileira e um assistente de imagem para fazer os bastidores. Também foi um representante da União dos Povos do Vale do Javari (UNIVAJA), Manoel Chorimpa.

 

A equipe! No centro da equipe, a documentarista. À esquerda, esta que escrevinha e à direita, a antropóloga Barbara Arisi. Foto de Paulina Chamorro, tirada antes do ingresso no Vale do Javari.

Como já esteve por aqui antes, muitos deles você já conhecia?

Sim. E é muito emocionante falar sobre isso, porque o trabalho para chegar até aqui foi de muito esforço, de procura por apoio e planejamento. Então esta viagem pra mim começou há muito tempo.

E realmente é muito gratificante poder tentar ajudar. Tem algumas pessoas dessas comunidades que se tornaram meus amigos e pediram minha ajuda como documentarista, como  personagem internacional para levar suas histórias para o resto do mundo.

Todo esse esforço faz parte de um grande quebra-cabeças que os povos indígenas desta região estão montando para tentar sair dessa situação de saúde problemática, de medo das ameaças às suas terras, da falta de demarcação…e eu me sinto muito feliz de fazer parte deste esforço.

Como você descreve o vale do Javari?

Para mim o Vale do Javari não é somente um lugar distante, é um lugar no meio de tudo. E importante para todos, os que estão aqui e os que vivem a milhares de quilômetros de distância. Se protegermos este lugar, vai chover em São Paulo, por exemplo. As árvores daqui são importantes para toda a América Latina.

O Javari é um exemplo do que pode ser feito bem, na prevenção e na preservação. Aqui é um núcleo de biodiversidade inestimável, a IUCN diz que é uma área insubstituível. Estas plantas podem ser uma fonte de soluções farmacêuticas para o mundo. Se destruirmos isto aqui, estamos fazendo muito mal. Mas mais importante são os seres humanos que protegem esta floresta. Para mim é tudo é um conjunto de importâncias.

Vista a partir de Atalaia do Norte para a vasta região do Javari ( foto:Paulina Chamorro)     

 São 23 povos isolados no territorio indigena do Vale do Javari, o maior índice das Américas. Povos que não querem ter contato com o que chamamos de mundo civilizado. O que você acha disso?

Os isolados têm os mesmos direitos que nós. Apesar de eles não fazerem parte desta dita modernidade. Eles possuem sua própria sociedade e valores, e não podemos esquecer que as terras são deles. Não temos o direito de invadir e fazer o que quisermos neste território.

Talvez seja um dos lugares mais selvagens do mundo, no sentido que dependem totalmente da natureza. E é nosso dever que continue assim. Temos destruído tanto em outros lugares, e não aprendemos a lição. Aqui temos a chance de fazer diferente. Já vimos que destruir lugares e pessoas, não leva a lugar nenhum e não ajuda a ninguém.

Conheça o projeto: www.tribesonthedge.com

Veja o teaser do documentario:

Releia o relato da antropóloga Barbara Arisi para o Aliás, do Estadão, ‘Nas mãos do pajé’ : http://migre.me/kZfG8

Matéria no site Amazonia Real: http://migre.me/kZegY