Chapa quente!No Peru, glaciares diminuem 40% em 30 anos

Chapa quente!No Peru, glaciares diminuem 40% em 30 anos

País recebeu esta semana o Fórum Internacional de Glaciares.

Paulina Chamorro

05 Julho 2013 | 16h47

foto: Andina

Em maio estive na capital da Colômbia, Bogotá, para mais uma etapa do excelente e estimulante curso para jornalistas dos países andinos amazônicos, sobre mudanças climáticas.

Uma iniciativa de IPYES- Instituto Prensa y Sociedad, CDKN- Alianza  Clima y Desarrollo, USAID , Iniciativa para la Conservación en la Amazonia Andina- ICAA e SPDA, as mesmas intuições que me levaram para a Amazônia peruana, como relatei aqui neste blog.

Desta vez, com menos dias de curso e concentrados num hotel, eu e meus colegas do Peru, Bolívia, Equador e Colômbia tivemos verdadeiras aulas com especialistas em diferentes áreas. O objetivo é enxergarmos cada vez mais conexões sobre os impactos das mudanças climáticas na rotina das pessoas, no campo ou nas cidades. Principalmente na saúde.


Nesta semana, em Huaraz, Peru, foi realizado o Fórum Internacional de Glaciares.

Quando li a noticia e o local, automaticamente lembrei-me da entrevista que fiz a Lucia Ruiz, do Ministério do Meio Ambiente do Peru, durante o curso na Colômbia.

Lembrei porque ela falou muito da importância da água e do fornecimento para as cidades. Falou também do diferente significado da água para cada comunidade andina, dependendo da região e altitude onde se encontra. Mas em determinado momento da apresentação falou do derretimento dos glaciares tropicais, sendo o Peru um dos poucos países a ter este espetáculo natural. E mostrou a fotos dos glaciares, em Huaraz..

O gancho para esta história é a alarmante noticia do Fórum Internacional que saiu nesta semana: em 30 anos o Peru perdeu 40% da superfície glaciar!

O impacto em países andinos que dependem de outras fontes de fornecimento de água, como no caso os glaciares, é tanta, que não resta aos países buscar a adaptação.

Segue trechos da conversa com a especialista do Ministério do Meio Ambiente do Peru, Lucia Ruiz.

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Paulina Chamorro – Existem diferentes formas dos povos andinos perceberem a água. Depende inclusive da região e de que altura da montanha ela esta localizada. Como funciona isso?

Lucia Ruiz – A água esta relacionada à criação das pessoas e ao local onde vivem estes povos. Para a Amazônia Peruana, a água é transporte, alimento e é parte da tua vida cotidiana. Não acontece o mesmo nas cidades. Quando você vive ou nasce em cidades, tua relação com a água é na torneira, e na maior parte das vezes não se sabe de onde vem.

Na Amazônia peruana não se pode conceber a vida sem água. Ela é tudo: transporte e alimento. Os peixes amazônicos precisam de um bioma saudável e qualquer impacto pode afetar este regime. Para as comunidades amazônicas a água tem um aspecto de divindade, muito arraigada à cultura. Acontece o mesmo nas montanhas, na cordilheira. Também tem um componente divino e religioso, muito importante. Para você ter uma idéia, a inauguração de um canal que leve água de um lado para outro é uma festa!

Quanto mais urbanos nos transformamos, mais afastados ficamos destas visões culturais e religiosas.

PC–De onde sai a água que abastece as cidades peruanas?

LR- Cada cidade se abastece da bacia mais próxima. Mas é muito marcada a diferença daquelas comunidades que se abastecem das montanhas ou da cordilheira daquelas que se abastecem na Amazônia.

O singular do Peru (pode ser que aconteça em outros países) é que a maioria das cidades mais populosas se encontra na costa do Pacifico, que é desértica. Lima, a capital, é a segunda maior cidade instalada num deserto. A primeira é o Cairo.

Sete milhões de pessoas vivem na capital, e de onde tiramos a água? Das montanhas!

Isso faz com que seja caro e que com o impacto das mudanças climáticas as pessoas e a cidade fiquem mais vulneráveis: muita gente num lugar com pouca água.

A Amazônia tem menos densidade populacional e mais disponibilidade de água. Mas ali o problema é outro: o mínimo impacto contaminante pelo garimpo ou por uma petroleira suja um volume de água grande que afeta as comunidades tradicionais que vivem ali.

PC- Estes glaciares tropicais também servem para o abastecimento de água? E qual é a velocidade do impacto das mudanças climáticas sobre eles?

LR- O Peru é atravessado de norte a sur pela Cordilheira dos Andes e uma das partes é o que denominamos a Cordilheira Branca. Chama-se assim por que justamente são as montanhas nevadas, que abastecem as comunidades rurais e também cidades importantes como Huaraz.

Lamentavelmente o processo de derretimento que temos visto nestes glaciares tem sido bastante inconveniente, que pode levar ao desabastecimento de cidades importantes, mas o que é o pior: quanto mais alta com relação ao nível do mar seja comunidade afetada, mais vão sofrer com geadas, secas e falta de água para produzir alimentos. Podem também sofrer com enchentes.

Dizer que a solução está na palma da mão é mentira. Neste caso o que se pode fazer apenas são adaptações às mudanças climáticas por parte das comunidades.

Começar a observar, por exemplo, se as plantações que estavam a quatro mil metros de altitude, podem se adaptar a 3.500 ou três mil metros. 

Algumas comunidades provavelmente irão descer da montanha um pouco, para trabalhar e ter atividades comerciais.

Como País estamos tentando conhecer a situação dos glaciares, documentar  quanto acelerou o degelo e quais os motivos e como  todos os pais latinomericanos mandar mensagens unificados. O que acontece os glaciares hoje no Peru, pode acontecer mais pra frente na Amazônia no Brasil, ou no a Bolívia, ou o Chile.

PC- Qual o impacto social de ter uma comunidade milenar que faz sua agricultura como aprendeu dos antepassados, e ter que começar a se aproximar das cidades e outras culturas?

LR- O importante é que cada vez mais está se reconhecendo o conhecimento tradicional. É tão importante aprender… As comunidades rurais e indígenas tem se adaptado desde muito antes às mudanças climáticas.

O que estamos fazendo no  Peru é recolher conhecimento tradicional nos lugares do Peru, não só na montanha – Puno também-, onde não  há acesso abundante à água e onde existem métodos que foram deixados de lado pela modernidade. 

Estamos recuperando coisas que se chamam camillones ou waru warus que significam métodos ancestrais de mudanças de agricultura. E se estão recuperando e fortalecendo culturalmente estas pessoas, para dizer que o que eles fizeram por séculos está certo! Nem tudo que é moderno é bom. O que é antigo e conhecido pode ser muito útil para o que estamos enfrentando hoje. Estamos tentando fomentar isso.

Peru megadiverso – É um dos 10 países megadiversos do mundo. Depois do Brasil, tem a floresta amazônica mais extensa, a cadeia de montanhas com maior superfície, 71% dos glaciares tropicais entre muitos outros números. As mudanças climáticas afetarão diretamente todos estes sistemas.