De Natalia para Agustín

De Natalia para Agustín

Conheça mais do novo trabalho da mexicana Natália Lafourcade, Mujer Divina. Uma homenagem moderna a um dos ícones do bolero latinoamericano, Agustín Lara.

Paulina Chamorro

10 Janeiro 2013 | 15h23

Nos primeiros dias de janeiro saiu pelo jornal O Estado de S.Paulo mais uma entrevista/reportagem minha com Emanuel Bomfim sobre música latinoamericana. Desta vez sobre a carismática, inteligente e simpática mexicana Natalia Lafourcade. Ela fez um dos melhores discos de 2012, Mujer Divina. E bem no final, coloquei um video de uma gravação acústica de um tema deste disco para vocês curtirem!

Agustín Lara, a lenda mexicana, ganha tributo de Natalia Lafourcade

05 de janeiro de 2013 |

EMANUEL BOMFIM E PAULINA CHAMORRO, ESPECIAL PARA O ESTADO – O Estado de S.Paulo

Dono de mais de 600 canções, Agustín Lara (1900 – 1970) foi o homem dos boleros e das mulheres. Não há mexicana que não tenha se rendido aos encantos do Flaco de Oro. Dezenas delas, as mais hermosas, tiveram o poeta em seus braços. Outras tantas, aos milhares, cultivaram suas paixões genuínas em devaneios romantizados. Natalia Lafourcade, um dos principais nomes da cena pop mexicana atual, é um dos casos de paixão tardia. Quando nasceu, em 1984, Agustín não era mais febre no rádio, mas sua reputação sempre fora exemplar, tanto na memória do povo quanto na voz dos artistas que se revezavam por múltiplas versões de clássicos como Solamente Una Vez.

Enquanto deu rumo a uma carreira de sucesso retumbante e projeção internacional, a partir do ano 2000, a pequena e charmosa Natalia jamais havia cogitado dar vez aos standarts de Agustín. Era o antigo que, aparentemente, não dialogava mais com tempos atuais. O panorama mudou em 2010, quando a maestrina Alondra de La Parra a convidou para cantar num concerto de celebração do bicentenário da independência do México. No repertório, a homenagem sinfônica abarcava autores da música tradicional mexicana, entre eles o saudado compositor. “Todo este evento me motivou a buscar a música de Agustín”, recorda a artista de voz suave.

Farolito, em sua melancolia devastadora, foi a primeira a abrir o coração da jovem musicista, também natural de Vera Cruz, tal qual seu mais novo ídolo. “Assim como todas as mulheres, eu também me apaixonei por ele”, confessa. Em pouco tempo, se entregou e foi assumir a difícil tarefa de escolher um seleto grupo de canções para um disco de covers, o quinto na sua trajetória. “As composições de Agustín tinham essa característica de serem como poemas, com muitas imagens e fotografias. A sensação que tive quando me aprofundei sobre a música dele foi de estar em contato com uma obra cinematográfica!”, exalta.


Com treze faixas, Mujer Divina foi lançado neste segundo semestre no México, onde já arrebatou disco de ouro, com mais de 30 mil cópias vendidas. O Brasil, normalmente distante da rota de lançamentos latinos, ganhou uma edição nacional, prometida para estar nas lojas a partir da segunda quinzena de janeiro (via Sony). O carro-chefe, neste caso, são as participações de Gilberto Gil e Rodrigo Amarante. O baiano canta justamente Farolito (“Ele é amável”, elogiou Natalia), enquanto o carioca empresta sua voz rouca em Azul (“Conheci ele através do Los Hermanos.”).

À exceção de María Bonita, responsável pelo gran finale, todas as versões trazem duetos com cantores. Além dos brasileiros, participam Meme, do Café Tacuba, Kevin Johansen, Devendra Banhart, Jorge Drexler, Alex Ferreira, Adanowsky, Adrián, do Babasónicos, Miguel Bosé e León Larregui, do Zoé. “De alguma maneira, era um sonho muito ambicioso tê-los em meu disco. Porém, quando o projeto começou, me surpreendeu como estes intérpretes conheciam Agustín Lara e queriam fazer parte do trabalho. Cada canção foi pensada para se adaptar a eles”, comenta.

Um dos temores era que o forte elenco pudesse se sobrepor ao valor da música de seu homenageado. Para isso, executou uma manobra estética artesanal. Preservou o lirismo das composições e investiu numa roupagem moderna, sem cair em modismos eletrônicos. A essência do bolero está lá, mas desta vez sofisticada por uma produção cuidadosa e uma multiplicidade de timbres tirados dos sopros e das cordas. “Queria fazer um disco de covers, mas sem perder a minha essência. É um álbum familiar que rompe com essa questão de gênero.”