Derretimento dos glaciares no Peru gera preocupação

Derretimento dos glaciares no Peru gera preocupação

Cerca de 40% dos glaciares do país retrocederam em 40 anos.

Paulina Chamorro

17 Outubro 2014 | 19h02

Cordilheira dos Andes ( foto:Paulina Chamorro)

O Peru sedia este ano a Conferencia das Partes sobre o  Clima  da ONU, a COP20, em dezembro, na capital Lima. E com a proximidade da data, diversos eventos preparatórios e apresentação de estudos tem sido divulgados.

O  mais recente detalha que nos últimos anos os glaciares dos 19 cordilheiras nevadas do Peru perderam em superfície más de 40%, de acordo com a ANA, Autoridad Nacional del Agua del Peru, na apresentação do Inventário de Glaciares e Lagoas Glaciares do  Peru.

Este inventário tem por objetivo dar informações técnico cientificas sobre as influencias das mudanças climáticas nos glaciares, como uma forma de prevenção frente a desastres naturais. Nos países andinos a importância da Cordillera Blanca está diretamente associada com o fornecimento de água.


O documento, produzido pela Unidade de Glaciologia e Recursos Hídricos da ANA peruana, mostra que o país andino possui no  total 26579 glaciares  com uma superfície de 1298,59 Km2. As cordilheiras com maior extensão são a Branca (localizada no Norte), Vilcanota e Vilcabamba ( Andes Central).

O Peru é um dos poucos países a ter glaciares tropicais, como os impressionantes e ameaçados em Huaraz.

A perda de superfície glaciar em tão pouco tempo é extremamente preocupante e a palavra de ordem agora sobre mudanças climáticas é a resilência.

O impacto em países andinos que dependem de outras fontes de fornecimento de água, como no caso os glaciares, é tanta, que não resta aos países buscar a adaptação.

Segue trechos da conversa com a especialista do Ministério do Meio Ambiente do Peru, Lucia Ruiz, feita em 2013, mas muito pertinente para entender a importância para o fornecimento de água e a cultura andina.

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Paulina Chamorro – Existem diferentes formas dos povos andinos perceberem a água. Depende inclusive da região e de que altura da montanha ela esta localizada. Como funciona isso?

Lucia Ruiz – A água esta relacionada à criação das pessoas e ao local onde vivem estes povos. Para a Amazônia Peruana, a água é transporte, alimento e é parte da tua vida cotidiana. Não acontece o mesmo nas cidades. Quando você vive ou nasce em cidades, tua relação com a água é na torneira, e na maior parte das vezes não se sabe de onde vem.

Na Amazônia peruana não se pode conceber a vida sem água. Ela é tudo: transporte e alimento. Os peixes amazônicos precisam de um bioma saudável e qualquer impacto pode afetar este regime. Para as comunidades amazônicas a água tem um aspecto de divindade, muito arraigada à cultura. Acontece o mesmo nas montanhas, na cordilheira. Também tem um componente divino e religioso, muito importante. Para você ter uma idéia, a inauguração de um canal que leve água de um lado para outro é uma festa!

Quanto mais urbanos nos transformamos, mais afastados ficamos destas visões culturais e religiosas.

PC–De onde sai a água que abastece as cidades peruanas?

LR- Cada cidade se abastece da bacia mais próxima. Mas é muito marcada a diferença daquelas comunidades que se abastecem das montanhas ou da cordilheira daquelas que se abastecem na Amazônia.

O singular do Peru (pode ser que aconteça em outros países) é que a maioria das cidades mais populosas se encontra na costa do Pacifico, que é desértica. Lima, a capital, é a segunda maior cidade instalada num deserto. A primeira é o Cairo.

Sete milhões de pessoas vivem na capital, e de onde tiramos a água? Das montanhas!

Isso faz com que seja caro e que com o impacto das mudanças climáticas as pessoas e a cidade fiquem mais vulneráveis: muita gente num lugar com pouca água.

A Amazônia tem menos densidade populacional e mais disponibilidade de água. Mas ali o problema é outro: o mínimo impacto contaminante pelo garimpo ou por uma petroleira suja um volume de água grande que afeta as comunidades tradicionais que vivem ali.

PC- Estes glaciares tropicais também servem para o abastecimento de água? E qual é a velocidade do impacto das mudanças climáticas sobre eles?

LR- O Peru é atravessado de norte a sur pela Cordilheira dos Andes e uma das partes é o que denominamos a Cordilheira Branca. Chama-se assim por que justamente são as montanhas nevadas, que abastecem as comunidades rurais e também cidades importantes como Huaraz.

Lamentavelmente o processo de derretimento que temos visto nestes glaciares tem sido bastante inconveniente, que pode levar ao desabastecimento de cidades importantes, mas o que é o pior: quanto mais alta com relação ao nível do mar seja comunidade afetada, mais vão sofrer com geadas, secas e falta de água para produzir alimentos. Podem também sofrer com enchentes.

Dizer que a solução está na palma da mão é mentira. Neste caso o que se pode fazer apenas são adaptações às mudanças climáticas por parte das comunidades.

Começar a observar, por exemplo, se as plantações que estavam a quatro mil metros de altitude, podem se adaptar a 3.500 ou três mil metros.

Algumas comunidades provavelmente irão descer da montanha um pouco, para trabalhar e ter atividades comerciais.

Como País estamos tentando conhecer a situação dos glaciares, documentar  quanto acelerou o degelo e quais os motivos e como  todos os pais latinomericanos mandar mensagens unificados. O que acontece os glaciares hoje no Peru, pode acontecer mais pra frente na Amazônia no Brasil, ou no a Bolívia, ou o Chile.

PC- Qual o impacto social de ter uma comunidade milenar que faz sua agricultura como aprendeu dos antepassados, e ter que começar a se aproximar das cidades e outras culturas?

LR- O importante é que cada vez mais está se reconhecendo o conhecimento tradicional. É tão importante aprender… As comunidades rurais e indígenas tem se adaptado desde muito antes às mudanças climáticas.

O que estamos fazendo no  Peru é recolher conhecimento tradicional nos lugares do Peru, não só na montanha – Puno também-, onde não  há acesso abundante à água e onde existem métodos que foram deixados de lado pela modernidade.

Estamos recuperando coisas que se chamam camillones ou waru warus que significam métodos ancestrais de mudanças de agricultura. E se estão recuperando e fortalecendo culturalmente estas pessoas, para dizer que o que eles fizeram por séculos está certo! Nem tudo que é moderno é bom. O que é antigo e conhecido pode ser muito útil para o que estamos enfrentando hoje. Estamos tentando fomentar isso.

Peru megadiverso – É um dos 10 países megadiversos do mundo. Depois do Brasil, tem a floresta amazônica mais extensa, a cadeia de montanhas com maior superfície, 71% dos glaciares tropicais entre muitos outros números. As mudanças climáticas afetarão diretamente todos estes sistemas.