Kevin Johansen, um cara plural

Kevin Johansen, um cara plural

Nascido no Alasca e radicado na Argentina, Kevin Johansen lança CD que dialoga com clássicos do rock e brasileiros.

Paulina Chamorro

10 Março 2013 | 17h39

Esta semana começou o Projeto Caros Hermanos, no Sesc Vila Mariana, que traz nomes da cena musical argentina para São Paulo.
Nas Rádios do Grupo Estado, Radio Eldorado e Rádio Estadão tive o prazer de receber o “cantautor” Kevin Johansen para entrevistas.


Ouça como foi na Eldorado aqui

 

Kevin Johansen no estúdio da Rádio Eldorado.

A Eldorado é uma das poucas emissoras no Brasil que toca Kevin Johansen, e eu sou fã a um tempo deste plural artista, que escreve letras intensas, ironicas, alegres, folclóricas e mais um sem fim de definições. Em off ele me contou de uma reportagem que saiu na imprensa espanhola, onde no anseio de colocá-lo num rótulo, acabou saindo que era sem gênero, portanto “degenerado”. Esta é uma das definições que Kevin mais gosta. Não sem antes dar uma bela gargalhada.

Na ultima quarta -feira, antecedendo seus show no Sesc Vila Mariana (com ingressos  esgotadíssimos), saiu uma matéria no O Estado de São Paulo sobre seu mais recente disco, BI. Por conta da chuva e da falta de luz na Vila Mariana na última sexta-feira, o segundo show do artista teve que ser cancelado.  E Kevin se mandou no final de semana para  Buenos Aires, para organizar neste domingo dia 10, mais uma edição do seu Festival El Vecinal  (A Vizinhança), onde convida a vários grupos de países vizinhos para somar na música.

Aliás, este é um grande papel para ele: somar e misturar.

No final da matéria, confira ainda o vídeo de Modern Love, canção chiclete dos ano 80, que Kevin Johansen transformou em folk.

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Cosmopolita

Emanuel Bomfim e Paulina Chamorro

Nascido no Alasca e radicado na Argentina, Kevin Johansen lança CD que dialoga com clássicos do rock e brasileiros

Antes chamariz, símbolo de vigor autoral, o disco duplo parece nascer derrotado. Em tempos de single no Soundcloud, clipe no YouTube e da estratégia de divulgação pulverizada, como acreditar no sucesso de uma obra com quase duas horas de duração? Kevin Johansen não ligou para isso quando formatou Bi, álbum duplo com vinte seis canções. São treze em cada CD, divididas por balizas estéticas distintas – um é mais acústico e outro é mais roqueiro. Na sua mente, só pesou o fator artístico. Sobre a questão mercadológica, preferiu jogar a toalha. “O disco físico hoje é para poucos”, cravou, em entrevista por telefone. O músico se apresenta amanhã e sexta no projeto Caros Hermanos do Sesc Vila Mariana.

No Brasil, além da tiragem sem sobressaltos, ela surge incompleta. A Sony lançou uma versão condensada, num único CD, com quinze músicas. Kevin não se mostrou incomodado, preferiu valorizar o raro ingresso de um produto cultural argentino. “É uma linda carta de apresentação e até pode ser melhor digerida”, afirma o cantor nascido no Alasca e radicado em Buenos Aires. “Quando as pessoas gostam, elas investigam mais e vão buscar as outras músicas no iTunes e na Amazon”, acredita.

Apesar de Bi ser o primeiro trabalho de sua discografia a ganhar uma edição brasileira, o artista já transita por aqui há algum tempo. As parcerias com Moska e Vitor Ramil permitiram essa aproximação. Em seu novo registro, Daniela Mercury divide os vocais com ele na suingada Apocalypso. Moska, que conheceu por recomendação do uruguaio Jorge Drexler, está na melancólica Tan Fácil.

A formação cosmopolita permitiu que o milongueiro de veia roqueira não só compusesse um álbum em três línguas (espanhol, inglês e português) como garantiu um retrato fervilhante da atual cena latina. Nomes como Lila Downs e Natalia Lafourcade (México), Rubén Rada e Fernando Cabrera (Uruguai) e Lisandro Aristimuño (Argentina) são algumas das atrações que demonstram o poder agregador de Kevin.

No plano musical, ele buscou dar sentido ao Bi do titulo cruzando influencias distintas de sua carreira. Jogo ( Subtropicalia) é mais folclórico, recupera ritmos tradicionais argentinos que fluíam facilmente na voz de sua mãe: milongas, chacareras e tangos. É a faceta que também estabelece diálogos com a música brasileira, caso de Buenos Aires Rio, misto de bossa nova e tango . ä barreira entre Brasil e Argentina é estranha, porque estamos muito perto, mas muito longe.”

O segundo disco, Fogo (Pop Heart) , reúne elementos mais atuais na sonoridade do cantor, em especial o rock e o folk. Dois covers nada comuns integram este lote de canções: Modern Love ( de David Bowie e Everybody Knows ( de Leonard Cohen).”Quando vai se aproximar de uma musica muito conhecida, é interessante tirá-la de seu contexto original.É uma forma de construir a minha. Gostei da idéia de mexer coma velocidade de Modern Love, muito impregnada pelos anos 80.”

A mesma variação estilística dos arranjos é facilmente identificada na poética de Kevin Johansen, sempre disposta a desconstruir clichês e abusar da sátira em seus versos. “A ironia é como uma tristeza disfarçada, uma forma de rir para não chorar, e obriga as pessoas que estão escutando a uma segunda leitura, um convite a se aprofundar.”