´Los Momentos´ de Julieta Venegas num passeio eletro

´Los Momentos´ de Julieta Venegas num passeio eletro

Julieta Venegas troca alegria por introspecção e tecnologia em álbum . A cantora mexicana se presenta nesta segunda, dia 27, em São Paulo.

Paulina Chamorro

27 Maio 2013 | 18h22

foto: divulgação

Paulina Chamorro e Emanuel Bomfim

(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo em 20 de maio de 2013)

Nada é tão caro para o artista pop como a timbragem. Por mais que a melodia defina, em muitos casos, o potencial de uma canção, é na embalagem que o autor cristaliza a expressão de sua música. Julieta Venegas, um dos nomes mais representativos da cena latina atual, resolveu trocar de roupa. Foi do orgânico para o processado. Abandonou o acordeom a tiracolo para emular o sinthypop dos teclados oitentistas. Uma transformação que coloca Los Momentos, seu mais novo disco de estúdio, em observação. Afinal, o que motivou esta mudança de identidade?


“Foi uma necessidade minha de provar outros sons”, explica a cantora e compositora em entrevista, por telefone, ao Estado. “Mudar os timbres e descobrir o que fazer com eles me pareceu mais interessante”, diz. Nesta imersão de bases sintéticas, ela recorreu ao produtor Yamil Rezc, a quem se refere como cúmplice. Militante da cena alternativa mexicana, ele já trabalhou com bandas como Le Baron e Hello Seahorse! As 11 faixas inéditas nasceram no piano, mas serviram apenas de ponto de partida: o universo acústico, definitivamente, não era mais uma referência.

Risco calculado. Assumir um risco deste porte é para poucos. A reputação conquistada nos últimos 15 anos permite que ela direcione sua carreira com liberdade estética. O começo de tudo foi nos anos 90: piercing, cara de má e uma identificação com o indie rock.

Com o tempo, e um raro contrato com uma major (Sony) – mantido até hoje! – , a multi-instrumentista se mostrou uma cantautora de múltiplos predicados. Arrebatou meia dúzia de Grammys e viu seu público multiplicar na Europa e América do Sul. Até o Brasil, reticente com os artistas latinos, deu algumas brechas para seus versos. O ápice comercial pegou carona no mega hit Me Voy, do álbum Limon Y Sal, de 2006. Vendeu quatro milhões de cópias ao redor do mundo. Na sequência, os discos MTV Unplugged (2008) e Otra Cosa (2010), também editados por aqui, tiveram boa aceitação, mesmo com vendas mais modestas.

Nascida em Tijuana, na fronteira com os EUA, Julieta pouco falou de seu país em suas letras, ainda mais do ponto de vista político. Ser engajada nunca foi uma preocupação. Depois que se tornou mãe, certas inquietações começaram a lhe tirar o sono, em especial, a violência. O México trava hoje uma batalha complexa com os cartéis do narcotráfico.

A angústia deflagrada pela cultura do medo a motivou a escrever a canção Vuelve. “Não tento manifestar uma opinião político-social. Mas não poderia deixar de falar dos problemas de meu país. É algo muito doloroso”, analisa ela.

Arrebatada pela poesia cerebral de Borges e bombardeada por notícias de um mundo em desencanto, Julieta admite que Los Momentos se tornou um disco menos solar que os demais. “É melancólico, reflexivo.”

Sua turnê mundial já tem datas no Brasil: Porto Alegre (25/5), SP (27/5, no Teatro Bradesco), Rio (28/5), Natal (31/5) e Recife (1.º/6). Ciente do desafio de conquistar o mercado brasileiro, ela não só confia em sua linguagem pop como também busca estar antenada com o que rola por aqui. E surpreende ao revelar que Criolo, Nina Becker, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo e Vanessa da Mata servem de inspiração. “Sou muito curiosa”, conclui. /

E.B e P.C.