O 11 de setembro que o Brasil conhece pouco

O 11 de setembro que o Brasil conhece pouco

Ainda vale a reflexão...

Paulina Chamorro

15 Setembro 2014 | 22h26

Parece que foi ontem. O horror se sente no ar ao caminhar no  meio da multidão que está no Estádio Nacional de Santiago do Chile, na noite dessa quinta-feira gelada, 41 anos após o golpe militar que reprimiu mais de 20 mil chilenos e estrangeiros “subversivos” nas dependências do antigo estádio.

As pessoas que estão ali, alguns que sofreram na pele a repressão, o cárcere, a tortura, e muitos outros, homens e mulheres, muitos jovens e crianças, fazem questão de não esquecer o que passou com suas famílias, com o país. É uma forma de deixar bem claro que isso não poderá acontecer novamente. Mas mais que isso.


Está claro que a ditadura militar chilena deixou marcas na sociedade, mas também talvez tenha feito florescer um forte sentimento de amor à pátria, e uma busca incansável por justiça. Sentimento um tanto desconhecido dos brasileiros. No Chile, fazer parte dos movimentos que seguem exigindo explicações pelo sumiço de pais, mães e avós desaparecidos, ouvir músicas que marcaram a ditadura, discursos de pessoas como a neta de Salvador Allende, instalações que reproduzem os pés dos presos políticos ou apenas acender uma vela nos portões do Estádio Nacional, marcam e dão sentido à vida. Foi o que se  passou pela primeira vez  com o jornalista brasileiro Leandro Alves, que fez este relato ao Vias Alterlatinas.

E ainda teve a visita ao local onde os militares torturavam os presos. Bem abaixo das arquibancadas modernas do estádio há um espaço preservado, com os bancos de madeira de 1973, onde as pessoas dormiam ao relento e enfrentavam o frio que para o brasileiro Leandro já  estava quase insuportável. E de novo o horror no ar se sente pesado.

 

Mais alguns passos e se chega a outro ponto de visita, os antigos banheiros onde as mulheres foram presas e torturadas. Um senhor – que também esteve preso lá – começa a contar como os militares tratavam as mulheres. As molestavam no meio da noite. Mandavam tirar as roupas (não esqueça do frio) para ficar observando-as. Isso sem citar as torturas, que é melhor nem começar a contar. Para ele esse espaço foi o que mais me impressionou. Não conseguiu tirar uma foto.

Lá pelas 22h30, já caminhando fora do estádio, Leandro acendeu uma vela em memória aos mais de 20 mil chilenos e estrangeiros, dirigentes políticos e sindicais, militantes e simpatizantes de partidos de esquerda, estudantes, servidores públicos, donas de casa, profissionais liberais, assistentes sociais, advogados e muitas outras vítimas da ditatura militar. Agora, o sentimento de todos aqueles com quem compartilhou a noite também está guardado no coração desse brasileiro.

Para conhecer os Memoriales de Conciencia procure no Facebook Estádio Nacional Memória Nacional (em espanhol)

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