#testemunhas do clima:os agricultores peruanos das alturas

#testemunhas do clima:os agricultores peruanos das alturas

Paulina Chamorro

06 Dezembro 2014 | 17h19

Comunidades do entorno do Parque Nacional de Huascarán

Um roteiro triste e espetacular é fazer a rota do Parque Nacional Huascarán, ao norte de Lima, no Peru. A área protegida tem mais de 350 mil hectares e é emblemática pela beleza das montanhas nevadas e vales impressionantes. O Parque Nacional está na área do Departamento de Ancash, que abriga 11 cidades, algumas pequenas e outras bem grandes, como Huaraz com 120 mil habitantes.

Toda esta área tem passado pré-incaico, da civilização wari.E todas estão a mais de 2 mil metros de altitude. Passear por esta região, pelos pequenos povoados, é uma viagem no tempo. Os agricultores ainda se vestem de forma tradicional, as cholas com várias saias e chapéu e os homens de calças enroladas na canela, blusa de lã e sandálias. Plantam milho, batatas e favas. Metade para uso próprio e metade é vendido duas vezes por semana na cidade mais próxima, numa grande festa de cores e cheiros, no chão do mercado de rua.

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O Parque Nacional de Huascarán possui dois grandes maciços de Montanhas: a Cordilheira Branca e a Cordilheira Negra. Aos pés de ambas, inúmeros pequenos agricultores das alturas ainda preservam suas tradições na terra de acordo com as características do solo e o que as cordilheiras oferecem. No caso do lado da Cordilheira Negra, os agricultores colhem apenas uma vez por ano já que a disponibilidade de água é mais rara, pois não há neve por aqui. Logo atravessando o vale que divide as duas montanhas, do lado da Cordilheira Blanca, os agricultores colhem três vezes ao ano, e a água desce farta da montanha.

 

Aqui o problema das mudanças climáticas é outro. Em apenas um dia de novembro, uma geada fora de época (o normal seria em julho) foi capaz de destruir todas as pequenas plantações de um vale inteiro. De um dia para o outro, dezenas de famílias acordaram com sua produção queimada pelo gelo. Agora, sem perspectiva, não sabem o que plantar. Alguns optaram pelas rosas, porém o investimento pelas sementes é muito alto.

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E é muito irônico terem que vender rosas, para ter dinheiro para comprar… alimento! O agricultor Simón Bolivar Flores olhava triste para o milharal queimado, segurando seus dois burros.

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O professor Ilário Reyes também estava desolado. Mas com a clareza de o que aconteceu neste pequeno lugar da montanha é o resumo do mundo frente às mudanças climáticas: não fomos só nós que perdemos nossa colheita. Perde o mercado de rua que compra da gente. Perde o supermercado que compra do mercado. E perde quem compra nos supermercados. Como este problema pode ser só nosso?’.

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Mais imagens da Cordilheira Blanca no Parque Nacional de Huascaran

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