#testemunhasdoclima: O cacau da Amazônia e a cheia do Madeira

#testemunhasdoclima: O cacau da Amazônia e a cheia do Madeira

Paulina Chamorro

21 Novembro 2014 | 12h01

#Testemunhasdoclima

Nos primeiros meses de 2014 cidades na Amazônia brasileira e boliviana foram afetadas com a cheia histórica do Rio Madeira, afetando os Estados brasileiros de Rondônia, Acre e Amazonas.  Pelo lado boliviano, a região foi a do rio formador do Madeira, o Beni (juntamente com o Madre de Dios, do Peru)

Um episódio meteorológico típico do verão, chamado Alta da Bolívia, mas o fato é que em cem anos de medição, nunca se havia chegado a esta cheia inédita, próxima de 20 metros.

Deixando a polemica da influência da construção de hidrelétricas para outro momento, neste blog e no Planeta Eldorado e Planeta Estadão, programas que apresento nas emissoras do Estadão, comecei com o espaço #testemunhasdoclima. Relatos de pessoas que estão vendo as transformações no seu entorno.


Suamy Braga de Mello, da região da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Amapá, coordenador técnico da Ceplac- Comissão executiva de planejamento de lavoura cacaueira, no município de Manicoré, no Amazonas, conversou comigo sobre como os pequenos produtores ainda estão tentando se reerguer depois da tragédia climática do começo do ano. São produtores que trabalham com o Sistema Agroflorestal –SAF, que mistura diversas culturas para ter produção o ano todo. No caso de Manicoré, o plantio de cacau está junto com o de banana, goiaba e açaí.

 

 

 

 

 

 

 

Paulina Chamorro – Como a enchente histórica do Rio Madeira afetou a produção de cacau¿

Suamy Braga– No município de Manicoré temos uma estimativa de 205 produtores de cacau. Isso vem dar 400 hectares em cacau, em produção e em fase de implantação.Com a cheia do Madeira nós tivemos uma perda imensurável. Tanto com relação a perda da produção, quanto da perda do estimulo do produtor em trabalhar com uma cultura perene, de ciclo longo. Ele tem medo de seguir com o ciclo antigo, então vir uma outra cheia e ele perder tudo de novo.

Pelos dados que a gente tem, estimamos uma perda de 50% dessas áreas devido ao alto nível que o rio chegou, ao longo período que a agua ficou alta e quando ela baixou tivemos problemas de aterramento, ou seja de deslocamento de banco de areia para áreas produtivas. Também houve ‘rachamento’ do caule dos cacaueiros, que possibilita a entrada de fungos.

É um problema que a gente vai demorar anos e anos para recuperar estas áreas e a autoestima dos produtores para voltar a produzir.

 

Paulina Chamorro- Como funciona no financiamento para voltar a produzir¿Não tem indenização¿

Na região norte tem uma política diferente do sul. Não tem indenização e não tem seguro.

Então temos produtores financiados em 2010 que começarão a pagar o financiamento em 2015. Já mandamos pedido de prorrogação, estendendo o prazo deste pagamento

Estes produtores de várzea que perderam tudo, até a terra que eles plantaram foi perdida porque está cedendo com o aterramento, não tem perspectiva de prorrogação desta dívida.

Como trabalho com a parte técnica, temos que trabalhar com a realidade, mas também com o estimulo. Se o produtor ele é a pessoa que não se desestimula, não somos nós que vamos desestimular.

Hoje o conhecimento antigo que os produtores tem como medir a água e saber se a enchente é grande ou pequena, se a seca é grande ou pequena, são conhecimentos que já não são mais levados em consideração, por conta desta alteração completamente atípica do clima que está acontecendo nos últimos anos.

 

 

 

Viajei a Manaus a convite da Fundação Amazonas Sustentável, que promove o encontro de lideres de 16 Reservas de Desenvolvimento Sustentável que tem projeto com a ONG. Meu trabalho é dar aulas a jovens lideres, sobre comunicação e radio, um trabalho voluntario que tenho muita honra em fazer.