Uma conversa sobre mobilidade com Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá.

Uma conversa sobre mobilidade com Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá.

Em sua gestão implantou cerca de 450 quilometros de ciclovias alem de vias exclusivas para o sistema de ônibus BRT que virou referencia mundial, o Transmilenio. Inspirado no sistema de Curitiba, foi em Bogotá que se mostrou eficiente para o transporte de massa.

Paulina Chamorro

12 Maio 2013 | 22h42

Estive no final de abril participando de mais uma etapa do Diálogos para periodistas, promovido  pela YPIS- Instituto Prensa y Sociedad y CDKN e mais parceiros, em Bogotá, Colombia.Dedicarei outro post para contar dos temas do curso que foi mais uma vez de muito aprendizado.

Aproveitei minha estadia na cidade para entrevistar um dos consultores mais solicitados para temas de mobilidade urbana e ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa.

Ja tinha visto uma palestra dele no Rio de Janeiro falando sobre o tema.E também gentilmente atendeu a uma entrevista nos estúdios da Radio Eldorado.Confesso que a primeira vez que ouvi o seu raciocínio, com palavras muito bem escolhidas e que sempre causa impacto a quem o assiste a primeira vez, fiquei com aquilo na cabeça: “O primeiro artigo da constituição de quase todos os países, diz que todos os cidadãos são iguais perante a lei. Se isso é correto, um ônibus com 80 passageiros tem o direito a 80 vezes mais espaço na via que o carro com um passageiro. Isso é democracia.”

Falamos sobre mobilidade, democracia, bom uso do espaço público e ciclovias.  Onde fica bem claro, a mobilidade é um tema político.


Paulina Chamorro – Bogotá apresenta seu plano de expansão  da cidade para 12 anos. Quais seriam os desafios e pra onde podem crescer as cidades?

Enrique Peñalosa As cidades geralmente cometem o  erro grave  de não  antecipar o  crescimento que vão ter e por isso têm problemas tão grandes.  A cidade de São Paulo, tem o grave problema da falta de parques. Imaginemos que  São Paulo tivesse  parques lineares que travessassem a cidade de lado  a lado, como se fossem 20 Parques do Ibirapuera no caminho. Isto teria sido muito simples e barato  se tivesse sido planejado  com antecedência. Existem pessoas ingênuas, que sonham  que o  bonito  é que as cidades não  cresçam, mas infelizmente vão  crescer muito e se adensar.

Bogotá tem uma das maiores densidades do mundo, com cerca de 200 habitantes por hectare. Está entre as cinco cidades mais densas do mundo, não pode se adensar mais.E Bogotá tem problemas parecidos com São Paulo, porque tem falta de parques.

As cidades crescem, como  São Paulo e Bogotá, não somente porque aumenta a população, mas aumenta o  número de lares e mais importante  ainda é que os lares são cada vez menores.

À medida que são mais ricas as cidades, há demanda por mais edificações por pessoa. Porque numa cidade pobre existem apenas algumas casas de moradia e algumas estruturas do  governo, igrejas, prefeitura, escolas, etc. Uma cidade mais rica precisa de mais estrutura: são mais escritórios, universidades, empresas, restaurantes, cinemas, galpões…

À medida que a sociedade enriquece são necessários mais metros quadrados de cidade por pessoa.

O que eu acredito é que para antecipamos o crescimento o governo ou a prefeitura deveria comprar a terra no entorno das cidades. Por exemplo, fiz algumas contas: aqui em Bogotá querem fazer uma linha do  metro. O que acho bom, obviamente fazer metro é bom. Mas o sistema tipo de BRT, ônibus rápido com linha exclusiva, como o Transmilenio (sistema semelhante ao instalado em Curitiba e símbolo  da gestão de Peñalosa como prefeito de Bogotá) mobilizam quase o mesmo número de pessoas que o metrô.

Em São Paulo o quilômetro custa 250 milhões de dólares. Custa em Bogotá para fazer 27 ou  30  km de linha, (que não  mudaria nada, porque levaria o  4 % da população), sete mil milhões de dólares.Com este dinheiro se poderia comprar duas vezes a terra que é necessária para expandir Bogotá e todas as cidades colombianas.

Para onde devem crescer as cidades? Isto é o mais importante para o meio ambiente.

Hoje a metade do que é Bogotá surgiu de maneira ilegal. E continua crescendo de maneira ilegal, onde não pode expandir.Por exemplo, Bogotá tem milhares de hectares em áreas planas e apesar disso  20% da população de Bogotá tem ido para bairros ilegais, muito  altos, nas montanhas, obviamente sem parques e espaços públicos e onde o custo de energia e com o aquecimento  global será maior.  Não  dá  para chegar de bicicleta ou levar o  transporte pra lá por ser muito inclinado e porque vai  gerar um custo  alto de combustível.

Portanto, se a cidade cresce bem planejada e antecipamos o crescimento, teremos uma cidade ambientalmente ótima.

PC- Em São Paulo tivemos um boom imobiliário. E uma tendência à expansão vertical, onde na maioria das vezes o entorno do  prédio  ou centro  comercial não é pensado. O que você acha disso?  

EP– São Paulo cresce e vai  continuar crescendo  porque se precisa de mais cinemas, bairros, estruturas. O Estado devia ter antecipado o crescimento e ter comprado  terras para moradias,  ou pelo menos  terra para parques, para parques lineares. Ainda é possível  que o  Estado  intervenha derrubando  partes da cidade, fazendo  desapropriações para fazer  parques lineares e vias.

Quando fazemos as cidades o que estamos desenhando é uma forma de viver.  Não  tem nada mais importante do que planejar bem as cidades, porque isso  possibilita a vida seja mais feliz, inclusive pode ser mais importante que o dinheiro.

Uma cidade bem planejada pode ser mais feliz que a cidade com mais ingresso de dinheiro.

A mobilidade  em São Paulo: é bom que existam em edifício. Eu diria o  seguinte: mais importante que discussão  sobre a altura é o que é o que acontece quando os prédios chegam  ao chão: melhorar o  espaço  dos pedestres. Ou seja, depois dos edifícios o entorno se torna é agradável,  é mais fácil passear, caminhar, conversar, beijar por ai? Tem um espaço de convivência ou tem uma parede feia, uma área de estacionamento?

O importante quando se faz um prédio novo  é que melhore o espaço  púbico  da cidade logo  na frente dele… tenha ele 5, 10, 20  andares.Aliás, essa é uma discussão interessante, mas não  a mais importante.

E eles (os prédios) não geram congestionamentos, pelo contrário.Os prédios altos fazem possível duas coisas: em primeiro lugar faz com que seja possível  que as pessoas trabalhem perto de onde moram. Ou seja, se não são  permitidos os prédios altos, as pessoas terão que procurar outros lugares mais distantes para morar, gerando assim congestionamentos. Em segundo lugar, quando  há um adensamento como  São Paulo, prédios altos fazem com que se transforme  mais eficiente o sistema de transporte de massa, onde funcione melhor também a bicicleta.

Mesmo  numa cidade como  São  Paulo, tão grande, estudos mostram que a metade da população  vive a menos de cinco quilômetros do trabalho. Portanto  seria muito  bom fazer o  trajeto  de bicicleta, se houvessem calçadas boas e  ciclovias boas, protegidas.

O problema da mobilidade não  é técnico, é político. Para constatar isso não  é necessário um PHD da USP. Uma criança de 13 anos  percebe que a forma mais eficiente de usar um espaço viário  escasso é com vias exclusivas para ônibus.

Os sistemas de trens são muito caros. São Paulo gastou milhões e milhões de dólares  nos metrôs. E está bem, são bonitos e eficientes, mas enterrar os usuários  do transporte público não me parece muito democrático.Além disso, é preciso  dar aos usuários a superfície.

Eu vejo, por exemplo, aquela via enorme que te leva para o aeroporto de Guarulhos (Marginal Tietê e Rodovia Ayrton Senna). Não tem vias exclusivas para ônibus! Isso não é democrático ou técnico, é absurdo!

Democracia não quer dizer apenas que a pessoa possa votar.

No primeiro artigo  da constituição brasileira (não conheço, mas tenho certeza que deve ser igual a todos),  diz que todos os cidadãos são iguais perante a lei. Se isso é correto, um ônibus  com 80  passageiros tem o direito  a 80 vezes mais espaço na via que o carro com um passageiro. Isso é democracia.

As injustiças às vezes a gente tem na nossa frente e não  vemos. Por exemplo, há 80 anos as mulheres não podiam votar no Brasil e parecia normal na época. Hoje ter um ônibus  numa via com engarrafamento, sem vias exclusivas, é tão  absurdo  como  não  permitir que as mulheres não  votem.

Se disponibilizarmos vias exclusivas aos ônibus em todos os lugares, obviamente melhorando os sistemas (São a Paulo em alguns casos tem vias exclusivas, mas não  tem pontos para carregar o bilhete, tem problemas no atendimento ) podem resolver a mobilidade em todos os lados.

Dizem que a maioria possui carros em São Paulo, mas a realidade é que muitas pessoas, as que são  menos importantes nas empresas, não a podem ir de carro pro trabalho. Pois no  trabalho só existe estacionamento para os carros dos mais poderosos.

Os outros funcionários podem ter carro, mas não podem ir ao trabalho de carro, porque não  tem lugar para estacionar.

O tema da mobilidade, insisto, é um tema político, não técnico. Ou talvez um pouco técnico  sim, mas tem a ver com interesses políticos.E São Paulo tem uma figura terrível, que são aqueles senhores circulando de helicóptero  por toda a cidade. Isto é um símbolo terrível de exclusão.Nas cidades civilizadas, mais avançadas, os milionários na Suíça ou na Holanda  (que provavelmente são mais ricos que  esses de São Paulo) vão  de bicicleta ou de ônibus, ou de metrô para o trabalho.

Eu acho que São Paulo é maravilhosa, mas precisa de uns acertos.

PC- Tomando o gancho da vontade política, no seu caso  quando foi prefeito de Bogotá teve dois símbolos de sua gestão: Transmilenio e ciclovias. Em São  Paulo estamos quase num momento de guerra urbana, por conta do uso da bicicleta.Queria que você contasse o foi feito para implantar as ciclovias em Bogotá.

EP– Em Bogotá fizemos ciclovias primeiro que em qualquer pais nas Américas, que em Paris, que na Espanha…

Hoje estamos parados, mas  fizemos quase 500  km de ciclovias protegidas, fisicamente protegidas.

Em 12 anos passamos de zero ciclistas para 6% de ciclistas. O que é interessante porque 19% da população se movimenta em carros e 6% em bicicleta. O que dá mais menos que de cada três carros uma pessoa se mobiliza de bicicleta.

Eu acredito  que os que cidadãos que se movimentam no transporte público e os que andam de bicicleta são heróis que estão fazendo uma contribuição para a  sociedade, diminuindo a poluição e congestionamentos e deveriam ser tratados como heróis, se transformando em  prioridade na cidade. Ou seja, dar prioridade ao ônibus em vias exclusivas, dar prioridade aos pedestres e aos ciclistas.

Mas a pergunta que fica é sempre esta: a ciclovia é um detalhe  arquitetônico simpática ou é um direito?Eu penso que é um direito, porque de outra forma, somente quem usa carro  tem direito  de se locomover na via sem morrer.Então, é importante ter claro que o recurso mais valioso para qualquer cidade é o espaço viário. O espaço entre os edifícios.

Como se divide este espaço entre pedestres, nas calçadas, ciclovias, transporte publico com ônibus e os carros? Isto é uma decisão política.Eu penso que hoje entendemos que ter calçada em todas as ruas, é obrigatório, é um direito. Mais além, num país civilizado se alguém é atropelado  numa via sem calçada, certamente este cidadão irá processar o  estado e ganhará, porque a obrigação  do  Estado  é  lhe dar calçadas. Mas eu também acho que é dever do  estado  dar ao cidadão ciclovias, porque não  só os cidadãos pobres andam em bicicleta. Uma criança de 14 anos, por exemplo, a única mobilidade individual que tem é a bicicleta. E ele tem tanto direito  ao espaço público quanto  quem tem carro.

Em quase todas as cidades do mundo  dão mais espaço nas ruas para o estacionamento dos carros que aos pedestres e bicicletas. Por quê? Quem votou, quem decidiu isto?

E as ciclovias tem que ser nas  estradas, nas vias principais sim. Porque muitas vezes se confunde que a bicicleta é um meio para o lazer.

A bicicleta é um meio de transporte tão legitimo como o carro e o metro, então também têm que ir pelo caminho mais curto.  E obviamente em todas as ruas menores também. Mas tem que ter outros esquemas também, como  estacionamento de bicicletas nos prédios, nas estações de trens e metros, que permitam que as bikes entrem nos elevadores…

Claramente uma boa cidade deve ter uma boa calçada, ampla, que caibam duas cadeiras de rodas, uma junto  a outra, uma ciclovia ampla e segura em todas as partes e permanente, não  só para o  final de semana.  Aqui em Bogotá aos finais de semana estamos fazendo uns testes interessantes, que é fechar 100 quilômetros vias principais, mas isso se fez de maneira tímida em São Paulo.

Quando  fui  prefeito  fiz 70  km de vias só para bicicletas, vias 15 metros de largura, que cruzam a cidade de norte a sul, sem carros. Este é um conceito diferente do que vias só para pedestres.

Eu penso que a cidade do futuro deve ter milhares de quilômetros de ciclovias. Temos que pensar em cidades diferentes, onde as crianças possam sair às ruas e não se sintam ameaçadas.

Hoje se você disser para uma criança: cuidado com o carro, a criança vai pular assustada.Porque são dezenas de milhares de crianças atropeladas todo ano por um carro.Em Colômbia a principal causa da morte de crianças com menos de 14 anos é atropelamento. Mas o mais assustador não é que isso aconteça, mas que nos pareça normal.

Outras pessoas muito vulneráveis aos carros são os idosos. Porque já não são tão ágeis e não  são rápidos e não podem atravessar rápido.Isso  não  é normal, viver ameaçado de morte. Então penso que é possível desenhar cidades melhores e diferentes e claramente acho que cada vez mais é necessário tirar o  espaço dos carros e abrir espaço para ciclovias e para o transporte público aos pedestres. E acho que a tendência no mundo será cobrar mais e mais pelo uso do carro.

Em São Paulo e Bogotá temos rodízio, mas melhor do que o rodízio  é cobrar pelo uso  do  carro. Mais pelo  estacionamento  ou o ideal pelo uso da via publica, como  em Londres. Cobrar mais alto pela gasolina.

E com este dinheiro subsidiar um transporte público com mais qualidade, mais limpo e mais eficiente.

Assista aqui Peñalosa com David Byrne, ex-vocalista de Talkings Heads e cicloativista ( Ator do ótimo ‘Diários de Bicicleta’) numa volta de bike