Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

1º DIA

MANHÃ

O Estado de S.Paulo

14 Maio 2013 | 02h11

 

Perdoe a repetição, mas Buenos Aires é, literalmente, uma cidade literária. Sebos e pequenas livrarias se espalham por toda parte, nos cafés são devorados doces e livros, aguçando a vontade de parar tudo para ler. A barreira da língua? Ah, vira um desafio tão gostoso quanto compreender a cultura dos vizinhos.

Entender, por exemplo, como pode existir um lugar tão delicioso quanto El Ateneo (elateneocentenario.com), cineteatro de 1919 transformado numa livraria com mais de 120 mil títulos espalhados por três andares e um subsolo. No ar, uma placidez generalizada, no ritmo de uma leitura despreocupada no sábado à tarde.

Caso seja um entusiasta dos quadrinhos e não tenha encontrado seu objeto de desejo ali, caminhe até a Club del Comic (Alvear, 2.002). Edições raras de obras de quadrinistas locais como Quino, criador da questionadora Mafalda, ou Liniers, famoso por sua série Macanudo, estão dispostos em prateleiras com clima de sebo, misturadas a miniaturas de personagens estrangeiros.

Já a Galeria 5ª Avenida (Santa Fé, 1.270) é um daqueles lugares mágicos para quem gosta de moda, roupas vintage e não abre mão de bons preços. Reúne um apanhado de brechós que vendem roupas elegantes, descoladas ou exóticas - realmente depende do olhar. Vi moças estilosas tendo chiliques por ali.

Basta caminhar alguns quarteirões para sair do movimentado bairro de San Nicolas e chegar ao coração da nobre e elegante Recoleta, em plena Plaza Francia. Se for hora para um café, tanto melhor. De qualquer forma, dê ao menos uma espiada no salão do La Biela (labiela.com), um dos 73 estabelecimentos que faz parte do circuito histórico dos Cafés Notables, com programação cultural intensa (tinyurl.com/cafesnotables). Logo na entrada, os escritores Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges batem um animado papo enquanto bebericam um café - na forma de bonecos de cera em tamanho real.

Aproveitando o clima saudosista, cruze a Plaza Francia até o Cemitério da Recoleta. Limpo, organizado e turístico: um cemitério para quem odeia cemitérios. Ali está o túmulo de Evita Perón, discreto e quase difícil de encontrar - exceto pela constante muvuca.

A essa altura você terá fome. Para sepultá-la, duas opções. El Cuartito é uma pizzaria e empanaderia na Calle Talcahuano, 937, repleta de camisas de futebol e velharias pelas paredes. A fugazzeta (9 pesos ou R$ 3,50) é uma obra de arte transbordante de cebolas e queijo que sai fumegante do forno à lenha.

Já a opção histórica-glamourosa demanda dobrar três quarteirões desde o cemitério e abrir a carteira. Mas compensa. Da cozinha do restaurante do Hotel Club Francês (hotelclubfrances.com.ar), o chef Ramiro Martínez manda para o pomposo salão criações sofisticadas como o raro peixe olho-de-boi com ratatouille e tapenade (200 pesos ou R$ 77).

 

TARDE

Depois do almoço, é hora de preencher o espírito com cultura. Como? Contemplando arte de rua de primeira. Um táxi até o arborizado bairro residencial de Colegiales custa cerca de 50 pesos (R$ 19) – dali, às 15 horas, parte o tour guiado da GraffitiMundo (US$ 20), que conta histórias por trás das paredes coloridas.

 

Sem conseguir comprar mais do que cinco cores de spray em razão de restrições de importação em vigor desde os anos 1990, os artistas passaram a criar técnicas inusitadas. Como Franco Fasoli, vulgo Jaz, que misturou materiais como tinta asfáltica, lama, restos de churrasco (!) e gasolina. O resultado da gororoba em uma parede é impressionante: belíssimos ursos e minotauros de 4 metros de altura. O tema de outro artista, Mart, de 26 anos, são homenzinhos de pescoço avantajado que costumam pedalar pelos muros não apenas de Buenos Aires, mas também dão suas voltas pelos de Nova York e Berlim.

 

O tour termina em Palermo Soho, na Galeria GraffitiMundo, nos fundos do – grafitado, claro – Post Street Bar (Thames, 1.885). Ali é possível comprar trabalhos de inúmeros artistas que usam as paredes da cidade como vitrine – os preços começam em US$ 30. Há também oficinas de grafite e estêncil (técnica que utiliza desenhos em moldes pré-fabricados). Mais: graffitimundo.com.

 

Para encerrar o dia, espaireça curtindo um show de jazz ou folheando obras de filosofia, psicologia, arte e gastronomia na moderninha Dain Usina Cultural (dainusinacultural.com.ar), que é a cara de Palermo.

 

NOITE

Contrariando o mandamento carnívoro que normalmente reina quando se fala em Argentina, arrisque um jantar no Little Rose (Armenia, 1.672), intimista e competente restaurante japonês em Palermo. Peça a porção de norimakis, uramakis e niguiris (115 pesos ou R$ 44, por 20 unidades), preparados com peixes fresquíssimos.

 

Antes ou depois, passe pelo descolado e secreto Frank’s Bar. Porém, não ouse ir sem saber a senha para entrar. Inspirado nos Estados Unidos dos anos 1920, em plena Lei Seca, o bar faz questão de filtrar a entrada – pelo charme e para selecionar o público – trocando a senha semanalmente.

 

Cheguei até a porta e, entre dentes, o segurança me perguntou a palavra secreta. Respondi "John Keynes" (economista britânico, 1883-1946) e ganhei a contrassenha, que deveria ser digitada numa cabine telefônica. Escutei um forte barulho e a porta, no fundo falso da cabine, se abriu. Depois de um corredor escuro, cheguei ao salão. Ali, são servidos drinques caprichados, como o Fix, que leva gim ou vodca com açúcar, limão e frutas vermelhas (70 pesos ou R$ 27). Depois da 1 hora da manhã, o clima esquenta e DJs fazem qualquer espaço vago entre os aconchegantes sofás virarem pista de dança.

 

Como descobrir a senha? Seguir as pistas na página do bar (facebook.com/FranksBar.ar) é um bom começo

 

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